
A todas as pessoas presentes, como não podia deixar de ser, em primeiro lugar, eu quero agradecer o convite para participar dessa mesa tão importante. convidar esse seminário, é um seminário muito importante. É... porque ele é, na verdade, parte de um movimento, e nisso eu queria agradecer aqui o deputado Orlando Silva, um movimento de... não de resgate, porque o pensamento do professor Milton Santos é muito vivo e presente, mas de fortalecimento de um pensamento muito vivo e um pensamento que, neste momento desse centenário do professor Milton Santos, um pensamento que está cada vez mais em evidência. Eu queria agradecer ao SEDES, que é o Centro de Estudos e Debates Estratégicos, ao deputado Márcio Gerri, por organizar esse seminário, ao deputado Daniel Silveira também, porque foi... Daniel Almeida, por favor, não vamos fazer essa confusão. O deputado Daniel Almeida, que também foi muito importante para organizar, mas eu queria fazer um destaque aqui em especial ao deputado Orlando Silva, porque esse seminário, como eu disse, é parte de um momento de fortalecimento do pensamento do professor Milton Santos, e esse fortalecimento é feito de debates, é feito de reflexões, mas é feito de ações também. da USP, onde está sediado o arquivo do professor Milton Santos, que eu convido todos vocês a conhecer, que é um arquivo muito rico, é o maior arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros, é um arquivo que conta com cerca de 60 mil documentos, a biblioteca do professor Milton Santos, um arquivo muito rico, porque é um arquivo de trabalho que tem uma integralidade muito grande, um arquivo que está ali, estão registrados momentos importantes de toda a vida do professor Milton Santos, e é um arquivo que nós temos feito um esforço para que ele fique cada vez mais público, cada vez mais disponível, ou seja, que ele seja inteiramente processado, que ainda não foi, que ele seja digitalizado. E o professor... deputado Orlando Silva, ele desde o primeiro momento ele tem sido um parceiro nessa empreitada de ir atrás de recursos para processar o arquivo, de ir atrás de divulgação que esse arquivo existe, de que ele tem que ser usado, de que ele tem que ser disseminado da melhor forma possível. E esse evento, esse seminário, é parte dessa agenda de divulgação, de debate e de expansão do pensamento do professor Milton Santos, tal qual é o projeto de lei de inscrição do professor Milton Santos, Foi uma proposta também do deputado Orlando Silva. Então eu queria fazer esse registro porque essas ações são muito importantes quando a gente fala da reflexão É... que está vinculada a um pensamento tão grande quanto do professor Milton Santos. Eu queria dizer que, em vários momentos da história, da trajetória do professor Milton Santos, ele foi chamado... a debater no Parlamento. E... E bom... Um desses momentos está registrado no livro que daqui a pouco vai ser lançado, divulgado. Mas, nesses vários momentos também, eu tenho a impressão de que, além da homenagem ao pensamento do professor Milton Santos, o parlamento ganha muito quando ele se debruça sobre essa reflexão do intelectual tão importante. E, consequentemente, se o parlamento ganha, ganhamos também todos nós que somos... somos eleitores e temos interesse na política. Por que eu estou dizendo isso? Porque o professor Milton Santos tem uma trajetória reconhecida internacionalmente, ele é, como todos sabem, um intelectual muito profícuo como intelectual, um intelectual de 40 livros publicados, de mais de 380 artigos, de dezenas de títulos de doutor honoris causa em universidades diferentes, que é o Nobel da Geografia, Então ele tem uma carreira acadêmica, E é muito... forte e um projeto intelectual muito reconhecido, como muito bem lembra o professor Jaime Oliva, que vai falar daqui a pouco. Mas o que eu queria dizer é que esse projeto intelectual também não se justifica, se não por um sólido projeto político vinculado a esse projeto intelectual. E, num momento onde nós temos muitos jovens aqui também, num momento onde há uma descrença muito grande na sociedade com a política... com a possibilidade de fazer política, muitas vezes justificável pela identidade que a política tem com... com com projetos que não são projetos de melhoria para o povo, de centralidade social, de centralidade da periferia. Resgatar esse papel político que o professor Milton Santos teve na sua história, eu acho que é algo muito importante nesse momento de centenário também, inclusive para discutir o projeto intelectual. Porque, se é verdade, e todos nós reconhecemos que existe um peso muito grande na obra do professor Milton Santos, de pensar o futuro, de pensar a emancipação do povo, de pensar estruturas de poder que se democratizem, um compromisso, como disse bem a Nina aqui, muito forte com a democracia. É verdade também que o próprio professor Milton Santos, em sua trajetória, também foi político. Tem muitos jovens aqui que são estudantes. O professor Milton Santos tem uma trajetória política desde a sua juventude. Ele foi o articulador da construção de uma entidade secundarista nacional, ainda na sua juventude, como secundarista. O professor Milton Santos foi um expoente da luta estudantil enquanto esteve na faculdade de Direito... da Universidade da Bahia. O professor Milton Santos, ao contrário do que pode parecer, ele não entrou na política pela esquerda, ou porque ele era parte de um pensamento marxista, ele entrou na política como parte de uma coalizão liberal, de uma coalizão anti-varguista e anti-participação da guerra no começo. mais essa trajetória, foi uma trajetória que foi sempre tensionada intelectualmente, pela esquerda, pelo contato com o marxismo via o seu orientador Jean Tricard, que era um francês que tinha um pensamento marxista muito importante, embora fosse um geomorfólogo. E essa tensão foi uma tensão que, dentro da atuação política do professor Milton Santos, foi se manifestando por diversas vezes. Ele, a partir da sua atuação política na... universidade, ele foi convidado para ser correspondente do jornal A Tarde, que é o maior jornal da Bahia, que, como o professor próprio Milton Santos dizia na época, funcionava como uma espécie de partido político, tal qual a força da comunicação que aquele jornal tinha naquele momento. E o Milton Santos, no primeiro momento, foi ser correspondente desse jornal na zona do Cacau, que era uma zona muito rica e era uma zona sobre a qual O jornal tinha um especial interesse de traduzir o debate que as elites baianas faziam naquela época. A atuação dele foi tão importante que o fez, por exemplo, mesmo morando em Ilhéus, ser candidato a vereador, indicado pelo jornal também, na cidade de Salvador. Depois disso, ele virou editorialista desse jornal, além de ser um profícuo, colunista do jornal, ele foi também editorialista do jornal, e esse lugar o levou a ser diretor da imprensa da Bahia, de 1959 a 1961. Após ser diretor da imprensa da Bahia, ele foi chefe da Casa Civil da Presidência da República no Estado da Bahia, que era o cargo mais importante que tinha naquele momento. Ele era o responsável do governo Jânio Quadros, na política da Bahia. Depois disso... Ele foi ser o presidente da Fundação Comissão de Planejamento Econômico do Estado da Bahia de 1962 a 1964. E essa trajetória política importante... foi interrompida pela ditadura militar. E foi interrompida justamente porque as ideias modernizantes e o conjunto de pessoas que ele mobilizou para pensar o planejamento do Estado da Bahia, começou a aparecer como uma afronta às elites políticas da época e aos militares que passaram a exercer o poder através do golpe de 64. Esse resumo todo é para dizer que essa trajetória do Milton Santos, até os 38 anos de idade, foi uma trajetória que teve, se teve também uma carreira profícua e muito importante acadêmica naquele momento, foi uma trajetória combinada. com uma trajetória política que era sua prioridade naquele momento. Então, até os 38 anos de idade, a prioridade... profissional do professor Milton Santos era exercida a partir da sua atuação política. Então, feliz ou infelizmente, o golpe militar interrompeu essa trajetória. mas também o golpe militar a partir do exílio, foi... mas também o momento do exílio foi um momento em que o Milton Santos foi desterritorializado, vamos dizer assim, se a gente pode usar esse termo, ele teve no exílio... um esforço muito, passou por um périplo com diversos países diferentes, né? Ele viveu na França, viveu nos Estados Unidos, viveu na Tanzânia, viveu na Venezuela, viveu em vários países também, exercendo trabalhos diferentes, mas foi quando ele pôde se dedicar à elaboração de uma obra que tinha um profundo sentido político, né? A partir de uma visão sobre a urbanização do terceiro mundo, o professor Milton foi criando... possibilidades de enxergar o planeta que não eram possibilidades baseadas numa dualidade ou numa dicotomia entre o centro e periferia, que era muito comum de ver naquele momento, entre os países desenvolvidos e os países subdesenvolvidos, onde os países subdesenvolvidos apareciam como apêndices ou como desdobramentos das economias dos países centrais, únicamente, exclusivamente. O professor Milton Santos elaborou uma teoria, onde... Os países periféricos eram não só parte da totalidade, eles eram a própria totalidade do planeta em movimento. E, a partir dos países periféricos, ele elaborou uma teoria absolutamente original... É... enxergando como o processo de urbanização nesses países construíam circuitos diferentes da economia urbana, e como esses circuitos não eram simplesmente complementares, ou pouco desenvolvidos. Eles eram parte da economia urbana nesses países periféricos, e eles tendiam também a ser parte da economia global, inclusive nos países centrais. Esse processo todo de elaboração foi um processo que se desenvolveu durante o exílio, e que o professor Milton Santos, que conferiu uma originalidade ao pensamento do professor Milton Santos, que o fez ser muito reconhecido internacionalmente e depois trazer um projeto intelectual acadêmico para ser disputado também no Brasil, para ser construído no Brasil, para ser debatido com os geógrafos, mas para além da geografia. Esse projeto... Ele se manifestou algumas vezes também... através de convites do debate do professor Milton Santos, de debate do professor Milton Santos no Parlamento. Um deles, antes desse que está sendo publicado aqui, no dia 14 de outubro de 1997, proporcionou É um texto muito importante que nós, geógrafos, temos muito costume de ler, chamado, que foi publicado pelo caderno do Legislativo, da Escola do Legislativo de Minas Gerais, chamado Da Política dos Estados à Política das Empresas. O que o professor Milton Santos fazia nesse momento? Primeiro ele dizia o seguinte: que assim como Florestan Fernandes, buscou interpretar o Brasil a partir da sociedade, assim como Celso Furtado buscou interpretar o Brasil a partir da economia, ou Darcy Ribeiro buscou interpretar o Brasil a partir do povo, que era necessário buscar uma interpretação que desse voz ao território brasileiro também. E esse foi o esforço que o professor Milton Santos fez também nesse texto, interpretar o mundo e o Brasil, a globalização e a política a partir do espaço geográfico. E, embora ele vá publicar o livro Por Uma Outra Globalização só em 2000, nesse texto de 1997, ele já dizia que a globalização... que era um discurso que estava muito em evidência naquele momento. Havia livros dizendo que a gente estava vivendo a partir da tecnologia, da disseminação da internet, numa aldeia global, que a gente estaria vivendo uma ubiquidade, que a lógica da velocidade ia se impondo em relação ao espaço, que havia uma supressão do espaço pelo tempo. Enfim, todos esses discursos ideológicos que eram conhecidos na época, que estava surgindo, estava em emergência, que contaminou muito as universidades, com esses discursos ideológicos, com uma idealização do que seria o mundo naquele momento, ele já dizia nesse texto que a globalização tinha que ser interdida de três formas. primeiro como fábula, segundo como perversidade e em terceiro como possibilidade. Entender a globalização como fábula era desmistificar essa ideia de que todos estaríamos conectados, de que haveria uma supressão do espaço pelo tempo e que a lógica da velocidade estaria disponível para todo mundo, que bastava a gente querer, que a gente se deslocava no espaço, disseminada, técnica mais disseminada dos transportes permitiria... O que ele disse é o seguinte, não. a velocidade não é um dado da técnica, essa técnica que a professora Mônica explicou muito bem que a técnica da informação... permitiu a conexão das outras tantas técnicas que a gente tem nesse momento histórico, dessa família de técnicas que a gente tem nesse momento histórico, então que sugeriria que o mundo inteiro estaria conectado, estaria veloz e que todos estaríamos comunicados, ele dizia não. A velocidade não é um dado da técnica. A velocidade é um dado da política. E essa política é a política que comanda a velocidade para alguns poucos, que dá acesso à velocidade para alguns poucos e dá acesso à técnica para alguns poucos. E o que ele diria é que é justamente por conta disso... É... que haveria também uma ciência em benefício de um pequeno número de empresas. essa nova realidade técnica, essa nova realidade do fenômeno técnico que estaria disseminado a partir especialmente... da segunda metade do século XX, mas mais intensamente no final do século XX, A partir desse fenômeno técnico com tamanha intensidade, eram necessários também para que esse fenômeno técnico se estabelecesse a serviço do mercado, um conjunto de normas. que estabelecia políticas rígidas, políticas que se disseminavam de maneira veloz e de maneira bastante... E... bastante rígidas. Essa rigidez é o que permitia também para o professor Milton Santos uma tirania do dinheiro e da informação. Então, o que a gente viu como uma financiarização da economia, que também tem a ver com esse fenômeno técnico da informação, com a comunicação permitindo essa ligação também, essa tirania do dinheiro se estabeleceu para muitos lugares, junto, casada com a tirania brasileira. É... da informação O que acontece com tudo isso? o Estado acaba entregando ao mercado a tarefa de fazer política. O que parece é que é o mercado... que é o único capaz de fazer política, que o mercado é um ser onipotente, onipresente, Como a gente vê, por exemplo, nos discursos, o mercado parece inclusive ter uma humanização "Olha, acordamos no dia e o mercado hoje está instável". O mercado está de mau humor porque aconteceu tal coisa. E isso, obviamente, são dados da política, né? E dados da tirania do dinheiro e da informação. Então, o que o professor Milton diz nesse texto é: "O chamado poder público passa a ser subordinado, compelido, arrastado pelas grandes empresas. Na medida em que aceitamos esse nexo das grandes empresas, estamos instalando a semente da ingovernabilidade. Obrigado. O Estado, que é responsável pelo geral, pelas pessoas que não têm acesso à velocidade, pelas pessoas que estão nas periferias, por exemplo, ele passa a ser enfraquecido. Existe uma fragmentação do território. pelas empresas, pelos interesses das empresas, e um abandono do que é fundamental na política, que é a solidariedade. Essas são as pré-condições de uma desordem e de uma substituição da democracia de verdade. por uma democracia do mercado. Então, reforçando esse argumento, O que o professor Milton Santos diz, inclusive ao parlamento, nesse texto que vocês estão publicando agora... de uma maneira muito importante, muito relevante, o que ele diz é o seguinte, que essa contaminação da lógica das empresas é o que vai instaurar, inclusive no... no Parlamento, Uma distorção da representatividade, porque ao invés do povo brasileiro estar representado nesse espaço aqui, o que começa a ter eram as bancadas de representantes das grandes empresas. O que o parlamento passa a ser compelido também, arrastado, subordinado a uma lógica das grandes empresas. E isso, eu fico pensando... E isso, claro, vai se desdobrar numa ingovernabilidade. Milton Santos falou isso no final da década de 90. Eu fico pensando, para terminar aqui... O que diria o Milton Santos dos dias de hoje? sobre a questão da ingovernabilidade. A começar pela autonomia do Banco Central, por exemplo. O que diria o Milton Santos? O que diria o Milton Santos... sobre a força política e geopolítica das big techs. O que é isso? Ou das agendas governamentais, não só do Brasil, um dos maiores exemplos, ele usa o exemplo do Bill Clinton naquela época, mas se o Milton Santos visse a visita do Trump à China, por exemplo, com uma comitiva de 30 militares. pessoas ilustres que nenhuma delas era da política, eram todos grandes empresários, especialmente empresários do ramo da informação, vamos dizer assim, das big techs, que tinham interesse naquele enorme mercado, que é o mercado chinês, mas interesse também na disputa da geopolítica. O que diria o Milton Santos sobre a ingovernabilidade se ele visse o orçamento capturado por iniciativas que não passam pelo executivo, e que muitas vezes esvaziam a possibilidade da solidariedade a partir da aplicação em áreas vitais que sofrem com subfinançamento hoje em dia. Então, queria dizer com tudo isso que o pensamento do professor Milton Santos sobre essa globalização perversa segue muito atual. mas segue atual também... a ideia da globalização como possibilidade. É justamente nesse cenário onde o professor Milton Santos diz o seguinte, que a política de verdade não pode ser exercida pelas elites, porque essas elites estão a serviço das grandes empresas. As classes médias também estão capturadas por uma ideia de lutar por privilégios e não por direitos. Então, que a política vai se refugiar. felizmente, nos pobres, nos ribeirinhos, nos quilombolas, nos periféricos das grandes cidades, na classe trabalhadora, e que vão existir pedaços do território... que vão contestar essas normas extremamente rígidas. e que vão... elaborar e lutar por políticas que abrem espaço à conscientização. Então, ao mesmo tempo que a gente pode ver essa luta do território só como recurso para as grandes empresas, a gente pode ver aqueles que lutam pelo território como um abrigo, como possibilidade de futuro, como possibilidade de pensar em algo diferente. E isso a gente também vê nos dias de hoje em muitos exemplos. E eu espero Obrigado. que é a luta contra a jornada 6x1, que é a luta em defesa... de uma jornada de trabalho digna para a classe trabalhadora, combinada com outras lutas, permitam para a gente que exercer no tempo livre, exercer no tempo que não é o tempo do trabalho, construir uma barricada nesse tempo do trabalho, para que a obra do professor Milton Santos seja lida, debatida, aprofundada, mas que seja fundamentalmente também ampliada e apropriada para que a classe trabalhadora, para que os pobres, para que os periféricos consigam construir a globalização como uma... Outra possibilidade de um futuro melhor e mais digno para todos nós. Obrigado. Aplausos.
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