PLENÁRIO
Sobre o Evento
Sessão plenária com vários deputados fazendo comunicações e votações, alternando a presidência entre Pompeo de Mattos, Coronel Meira, Maria do Rosário, Arthur Lira e Sóstenes Cavalcante. Várias votações realizadas com diversos deputados participando.
Deputada
Primeiro, eu falo na minha língua. Pra que vocês saibam que eu existo. Mas eu domino a sua língua. Eu domino a sua ciência. Eu domino a história também do seu povo. Mas o que fez com que eu dominasse isso? O ensino público. O ensino que eu tive inicialmente na minha região. Ah, mas eu encontrei dificuldades. Ah, a verdadeira brasileira, olha, 1 Índia de verdade. Mas eu fui tratada como igual. Eu tive o mesmo ensino que você, Eder Mauro. No nosso norte, na Amazônia brasileira, o mesmo ensino que este o outro indígena, o coronel Crisóstomo também teve. Nós não nos vitimamos, mesmo trazendo sobre nós flagelo histórico. Então quando estão falando sobre esse sistema de cotas para beneficiar negros, pardos, indígenas, eu vos confesso. Indígenas não serão beneficiados. Até porque aqueles que ousaram romper o ideal imaginário para ir para a sociedade estudar de igual pra igual, se passarem num concurso, eles serão obrigados a voltar para a reserva para poder se reconhecer como indígena. Se eles não fizerem isso, eles perderão a vaga para negro. Vocês sabiam que isso acontece? Em todos os concursos públicos. Então, neste projeto de lei, não existe a possibilidade apenas do índio se autodeclarar, como o negro se autodeclara. Nós vamos passar pelo tribunal racial para que branco decida quem eu sou. Então não existe neste projeto de lei dessa reserva de vagas, citaram indígenas, mas nós não teremos direito. Trago aqui pra vocês, o caso do Gilvan, jovem indígena que passou no concurso público no Amapá, e que foi exigido dele que ele voltasse pra reserva do Tumukumaki, mas ele não tinha meios pra pegar avião, pagar 60000 reais de táxi aéreo para poder pegar 1 assinatura do pajé, do cacique. Não, nós indígenas não podemos nos autoreconhecer como indígenas. É preciso ter o flagelo, saneamento porque nós somos proibidos inclusive disso, porque precisamos ser indígenas, não é assim? Estamos marcados pelo ideal imaginário e não somos tratados como iguais. Neste projeto de lei, da forma como vocês fizeram, nós não somos iguais, porque nós perderemos a nossa vaga pra vocês homens e mulheres negros. Porque nós não seremos reconhecidos nos imputando à dificuldade, teremos que retornar para aldeia. Você vai ter que retornar para aldeia, não vai adiantar o seu sacrifício, não vai adiantar. Eu perdi o meu DNA, eu perdi a minha história e o meu pertencimento, quando eu ousei ter saneamento básico, quando eu ousei ter ensino de qualidade. Quem fala é 1 indígena que nunca teve cotas, Foi menina de rua, virou atleta, pagou todos os seus estudos com a força das suas próprias pernas. Tenho nível superior, sou especialista, tenho mestrado, sou formada em transporte aromático, sou formada em relações exteriores, sou formada em política e estratégia pela escola superior de guerra, sou formada em liderança estratégica pela escola de comando em estado maior. Sou formada em relações exteriores, em defesa química, biológica, radiológica e nuclear. E eu fui mendiga no Rio de Janeiro e ninguém me ofereceu cotas. Quem me fez vencer foi o meu propósito, de ser tratada como igual ou de ser tão boa quanto vocês. Não apaguem a nossa história e a minha história como 1 mulher da Amazônia. Deem primeiro a todos nós povos indígenas, homens da floresta, a certeza de que teremos ensino de qualidade igual lá na ponta, porque o ensino que vocês dão para nós, não serve para nos qualificar ou nos deixar iguais. Precisaremos o tempo inteiro de cotas, cotas, cotas e mais cotas. E não dominamos sequer, muita das vezes, as 4 operações matemáticas. Está aqui, coronel Crisóstomo, indígena, oficial do exército brasileiro. Eu sou a primeira mulher indígena a ser oficial das forças armadas no Brasil e não fui selecionada por sistema de cotas, foi a meritocracia. O exercício e a força das minhas pernas que pagaram meus estudos. Fundei o primeiro serviço de fisioterapia de emergência do Brasil, com formação em transporte aeromédico e DQBRN. Sem sistema de cotas. A quem nós estamos defendendo? Brasileiros que defendam o seu país e a igualdade de direitos, ou ficar chorando a vida inteira por 1 história dolorosa do passado do qual não podemos voltar atrás. Não podemos voltar atrás na história, mas podemos transformar essa história com ensino de qualidade de base lá na ponta. Não deram. Aí dão cotas. Não deram pro segundo grau, dão cotas. Não deram pra universidade, dão cotas, dão cotas pro mestrado, dão cotas pra especialização, pro concurso público. Esses 30 por 100 indígenas não irão gozar deles, Serão negros que no final irão se beneficiar quando o indígena não tiver dinheiro pra voltar lá na aldeia. Porque ele precisa primeiro da autorização do cacique, do pajé, do espírito da floresta pra poder ser ele mesmo. Negros não precisam voltar da África pra África pra poder serem eles mesmos. Nós precisamos voltar pra aldeia. Não há justiça neste projeto de lei. Obrigada.




