COMISSÃO DE INTEGRAÇÃO NACIONAL E DESENVOLVIMENTO REGIONAL
Sobre o Evento
26/05/2026 - Política Nacional de Saúde Mental Climática (PL 6151/25)
Especialista de Referência em Desastre
Muito obrigada. Agradeço a V.Exa., Deputado Gilson, pelo convite e a toda a sua equipe, mas agradeço, em especial, à Dona Elida e ao Sr. Hélio pela presença nesta Mesa. Não é tão comum a gente encontrar alguém que vive o outro lado da história. Eu costumo dizer que uma política pública só faz sentido se as pessoas conseguem sentir. Elas não precisam saber o número da lei nem quem foi que conformou, mas se a lei chega lá no bairro, se ela chega lá no campo, é isso que faz sentido. O nosso trabalho é da mesma forma. (Segue-se exibição de imagens.) Agradeço a presença aqui também dos representantes do Ministério da Saúde, da Força Nacional do SUS aqui na plateia. Do outro lado, assistindo também, temos as equipes de Médicos Sem Fronteiras e outros componentes, equipes todas de saúde mental que vêm trabalhando com a gente nesses últimos anos. Permitam-me que eu me apresente para contar de onde venho. Eu trabalho desde 2008 exclusivamente com desastres de grandes proporções, seja o terremoto do Haiti, guerra na Líbia, conflitos étnicos no Quirguistão, Congo, as epidemias de ebola, que agora, infelizmente, a gente vê de novo. Nós vemos de novo, porque, eu costumo dizer, que agora pessoas brancas e pessoas ocidentais foram contaminadas, mas, infelizmente, desde 1970 isso já assola o mundo. Eu fico feliz de a gente ter a oportunidade de discutir dentro da Câmara dos Deputados qual é essa costura, o que a gente pode fazer com as políticas públicas para que elas sejam, de fato, eficazes. Trouxe aqui alguns componentes só para vocês terem uma noção. Vou falar um pouquinho do contexto global. A ONU tem trazido que, nesses últimos anos, de 2000 até 2019, mais de 7 mil desastres considerados naturais ou socionaturais, como a gente costuma usar, foram registrados. E esses só os registrados. Os desastres de menor impacto, de menor intensidade, geralmente não ficam no registro oficial. A gente perdeu mais de 1 milhão de pessoas, de seres humanos, que, do dia para a noite, abruptamente, perderam toda a sua rede socioafetiva. E a gente calcula que, se 1 milhão de pessoas morreram, 7 mil a 15 mil pessoas foram afetadas e, provavelmente, deixaram de fazer projetos de vida, de pensar se elas vão casar, se elas não vão casar, se elas vão construir num terreno que é da família ou não, se elas vão investir economicamente na sociedade a partir dos planos que elas tinham antes de uma ruptura abrupta. E isso afeta diretamente a saúde mental, porque não é só o número de pessoas que a gente perde, mas é o impacto que congela a sociedade que fica no entorno e que sobrevive a um desastre dessas proporções. Calcula-se que mais de 4 bilhões de pessoas já foram afetadas de alguma forma por desastres no mundo. E é importante a gente lembrar que há um crescimento que é impulsionado, infelizmente, pelo desastre relacionado ao clima, mas eu gosto de dizer que ele não é impactado pelo clima. E por quê? Eu gosto de dizer que para acontecer um desastre é mais ou menos como fazer um bolo. O desastre é só o fermento. Se você já não tem uma política pública que dê conta da vulnerabilidade, do racismo estrutural, da forma de habitar com segurança, provavelmente no desastre você vai ter a intensificação disso e a aceleração do que já viria a acontecer a médio e longo prazo. Então, é importante dizer que o desastre só acelera processos que já existem dentro da estrutura. Por isso, é preciso a gente pensar quais são esses desastres mais frequentes e como eles nos assolam. O primeiro deles são as enchentes. Este é o evento extremo mais comum no mundo e é também, no Brasil, o que mais nos assola, embora o que mais mate os brasileiros não sejam as enchentes, mas, sim, os deslizamentos de terra. Vamos falar da Região Serrana do Rio de Janeiro, em 2011. Quase todas as nossas políticas públicas nascem nesse ano, quando, de alguma forma, a gente perde abruptamente mais de 900 pessoas num intervalo de menos de 2 semanas. Perdemos 900 brasileiros num curto espaço de tempo. Eram pessoas que residiam em áreas que não eram consideradas de risco. Isso nos acende um alerta. Não é só aquilo que a gente vê, mas a condição que se estabelece.




