Ingrid Sampaio

Ingrid Sampaio

Instituto de Referência Negra Peregum

Últimos Discursos

06 de mai, 17:18

COMISSÃO ESPECIAL SOBRE O FIM DA ESCALA 6X1 VIDA DIGNA AO TRABALHADOR (PEC 221/19)

Transcrição automática

Presidente, boa tarde a vossas excelências, ao ministro, aos convidados. Eu sou a Ingrid Sampaio, coordenadora de advocacy do Instituto de Referência Negra Peregum, que compõe a Coalizão Negra por Direitos, que por sua vez tem 300 outras organizações do movimento negro brasileiro. Sei que vossas excelências sabem muitos dos fatos que eu trago aqui, mas é importante que se repita. O debate da escala 6x1, felizmente, é incontornável nesse momento, e ficamos felizes e aliviados quase que esteja acontecendo, ele não pode ser tratado puramente como uma discussão trabalhista ou econômica. É um debate sobre dignidade humana, sobre saúde, sobre distribuição do tempo, qualidade de vida, enfrentamento de desigualdades sociais que a gente enfrenta há muito tempo nesse país. Para além de tudo isso, é inegável que a precarização do trabalho possui, sim, uma dimensão racial, de gênero e territorial. A população negra está concentrada de forma desproporcional, impostos marcados por menores salários, maiores jornadas, maior informalidade... Jornadas mais extensas, condições mais precárias de trabalho e maior tempo de deslocamento urbano, principalmente. Isso significa, de forma muito direta, que os impactos da escala 6x1 não atingem todos os grupos da mesma forma. A manutenção dessas jornadas exaustivas aprofunda as desigualdades históricas e compromete diretamente o tempo de descanso, direito ao lazer, convívio familiar, cortando a própria possibilidade de construção de uma vida para além da lógica de sobrevivência, a produtividade. Assim como os nossos problemas com escolaridade, por exemplo, atingem meninos e meninas negras de formas diferentes, atingem também homens e mulheres negros de formas diferentes. Como já foi dito aqui algumas vezes, a realidade de mulheres negras é ainda mais intensa, como já foi dito. E além da jornada de formais de trabalho, a sobreposição do trabalho doméstico, o trabalho com cuidado, que tem uma dinâmica permanente sobre carga física e emocional. Então, não se trata de um recorte identitário, mas uma tentativa legítima de trazer os dados e a realidade para a mesa. O Instituto entende que a discussão sobre redução de jornada de trabalho precisa ser compreendida como parte de uma agenda de justiça racial e social. Reduzir essas jornadas exaustivas significa enfrentar um modelo de organização de trabalho que basicamente constrói esse país em cima da força de trabalho precarizada da população negra. Também é fundamental que o avanço desse debate no Congresso preserve o conteúdo das propostas em discussão. evitando processos de flexibilização extensa ou mecanismos que permitam novas formas de precarização do trabalho, disfarçadas de liberdade de negociação. Não existe liberdade de negociação quando um dos lados simplesmente não tem escolha. Então, muito obrigada pela oportunidade. Obrigado, senhora Ingrid, pela contribuição.

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