Douglas Belchior

Douglas Belchior

Representante da UNEAFRO, Professor Formado em História pela PUC/SP

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27 de nov, 15:41

CÂMARA DOS DEPUTADOS - OUTROS EVENTOS

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Boa tarde, tudo bem com vocês? É 1 satisfação estar aqui muito obrigado pelo convite, pelo trabalho dessa frente tão importante. Eu sou o Douglas o professor de história, sou amigo da Dandara de muitos anos então tenho muito orgulho disso, orgulho de acompanhar sua trajetória, você é a minha deputada aqui dentro dessa casa, 1 casa tão, dura com a nossa existência. Eu tive a chance de estar com você ontem pra discutir, fazer debate sobre reparação histórica, e educação tem tudo a ver com reparação. Eu quero falar pouco sobre isso aqui pra vocês. Eu sou da UNIAFRO Brasil que é movimento de educação popular do movimento negro, é movimento histórico, e a gente reivindica 1 linhagem histórica de continuidade das pessoas negras que se organizam, pra ter acesso à educação, e questionar o conteúdo da educação então, pra quem gosta de história, eu também soube aqui vários professores de história, via de regra professores de história são muito legais né gente? Quando resolve não prestar e não presta mesmo, mas via de regra nós somos muito legais. E, pra quem gosta da história, a gente tem registros de iniciativas negras antes da abolição da escravização formal né, antes de 1888, de pessoas negras que se reuniam pra alfabetizar negros que não que que não sabiam ler nem escrever, em garagens, em nas salas, tem registros de pai e mãe negros, mandando cartas pra professores que davam aula nas escolas quando elas já elas já existiam, só para brancos, dizer nossa será que você não pode em outro horário fora do seu horário de trabalho, dar aula pros nossos filhos? Quando acaba a escravização, a escravidão formal, quando acontece a abolição mentirosa em 888, a gente tem 1 1 revisão de lei penal em 1890, que é ano depois da da proclamação da república, que foi em 89, e nessa revisão penal tem 1 redução de idade penal pra 9 anos. Menos de 40 anos depois da abolição oficial da escravidão, a frente negra brasileira quando surge década de 30, tem como 1 das suas 2 principais estratégias, a primeira era inclusão socioeconômica, inclusão no mercado de trabalho. O capitalismo que surgia no Brasil expulsava os negros dos espaços oficiais de trabalho. Negros que eram caros pra trabalhar como pessoas escravizadas não serviam mais pra nada. Então a frente negra dizia poxa, nós queremos participar desse capitalismo aí pô, deixa a gente ser classe trabalhadora, deixa nós ser oprimido nesse sistema. Não. E não era só os patrões donos das empresas que surgiam. Os sindicatos, anarcosindicalistas, italianos, espanhóis, eram racistas também. Não permitiam, não queriam negros nas frentes de trabalho. Tem jornais sindicais que recordavam sobre isso. E a Frente Negra Brasileira, em 1930 e e durante aquela década, que depois foi cassado pelo estado novo do Vargas, ela vai fazer 1 coisa tão extraordinária, por porque o Brasil é 1 fazenda, do mesmo tamanho que é hoje praticamente, e comparada proporcionalmente, a Frente Negra construiu partido do tamanho do PMDB hoje, no MDB hoje. Porque o Brasil tinha 1 população muito menor, e a frente negra chegou a ter, alguns historiadores dizem, até 100000 filiados, num país continental, e não tinha WhatsApp, não tinha email, não tinha nada disso. Grupo de exescravizados só há 40 anos libertos. É extraordinário, revolucionário, não tem nome e não tem precedente disso no mundo. A gente romantiza muito a história da luta da luta negra nos Estados Unidos que é bonita pra caramba, mas a nossa é foda, é incrível. E se você tira 1 fotografia das salas de aula da frente negra brasileira, se você botar no Google, salas de aula da frente negra brasileira, e bota também assim, salas de aula da Uneafro Brasil, você vai ter 2 fotografias muito parecidas. Salas de aula com pretos estudando com pretos estudados. Que ali voluntariamente ensina aqueles que o estado negou o direito. A diferença é que é 1 preta e branca de 1930, a outra é a colorida de 2024. De maneira que denuncia problema histórico permanente. Educação no Brasil é privilégio, e quando se tem acesso a esse espaço você tem o problema do conteúdo, porque já foi dito aqui repetidas vezes hoje, que a escola é o primeiro espaço da sociabilidade onde se experiência, onde se experimenta com radicalidade o racismo. E outras fobias várias. A criança é tratada com carinho em casa, seja ela qual for, e ela descobre quando chega na escola que ela não é bonita igual a mãe diz, igual o pai diz, igual a irmão diz, não é tão bonita assim, não é tão fofinha assim, não é tão legal assim, porque na escola que é o lugar que de vim educar para a diversidade, pra inclusão, pra igualdade, educa pra desgraça, do racismo, do machismo, da homofobia, no e tudo mais e só faltam 3 minutos, e eu não falei nada que eu queria. A Adriana Moreira que é 1 professora muito importante do movimento negro em São Paulo, escreve documento que subsidia muito da ação da UNE AFRO, em São Paulo que é 1 rede de educação popular como eu já disse. E ela traz num dos textos que eu vou disponibilizar aqui pra mesa e quero registrar que a UNE AFRO Brasil tem interesse em compor grupo de trabalho que está sendo inaugurado hoje, queria depois saber como é que isso se opera, ela traz relato histórico de em que momento dados sobre violência de jovens negros ganha importância no Brasil, e ganha muita importância a partir de 2012, quando se cria, quando ali você tem as experiências do governo do PT, quando cria a secretaria nacional de juventude, quando começa a ter muita produção de dados sobre violência e juventude, e aí tem estudo em especial que é o IVJ, que é o índice de vulnerabilidade infantil à violência, que é publicado pela secretaria de governo da presença da república e a secretaria nacional de juventude, e também pelo Fórum Brasil de Segurança Pública é documento histórico importante, porque é dos primeiros que vai trazer motivações, dados elementares que relacionam, que se relacionam com a violência contra a juventude. E de acordo com esse com esse relatório, quais seriam as variáveis associadas aos níveis de exposição de jovens à violência? Permanência na escola, forma de inserção no mercado de trabalho e contexto socioeconômico, esses 3 elementos são fundamentais pra expor jovens à morte. 3 elementos são fundamentais pra expor jovens à morte. E aí ela traz dados objetivos da presença educacional de pessoas negras nesses espaços. Eu vou falar rapidinho aqui porque é só pra ilustrar. De acordo com os dados do Saeb, 2027.8 por 100 dos meninos pardos e 11.3 por 100 dos meninos pretos, acessam a escola com 8 ou mais anos de idade. No quinto ano no ensino fundamental 15 vírgula dos meninos pardos, e 20 e 0.2 dos meninos pretos já foram reprovados pelo menos 1 vez. Já no nono ano, 8 ponto por 100 dos meninos pardos foram reprovados 2 ou mais vezes, e 12.7 dos meninos pretos, da mesma maneira 2 vezes reprovados. No que diz respeito ao abandono escolar, no quinto ano do ensino fundamental, 7.7 por 100 dos meninos pardos e 9.6 dos meninos pretos, já abandonaram a escola 1 vez, o quadro apresentado pelos dados educacionais do ensino fundamental expressam o fato inexorável de que a escola de educação básica brasileira expulsa, é avessa, não quer meninos negros nos seus espaços. De maneira que o estado, que é o mesmo que, constrói contexto de vulnerabilidade social que cerca a existência da família, o mesmo estado que entrega a economia ao setor privado, e que não cumpre o seu papel de fomentar a economia e gerar oportunidades, gera mais elemento de exposição do corpo negro à violência, é esse que nega o espaço dos jovens negros nas escolas, e expulsa os meninos da escola, as meninas também, eu estou fazendo recorte aqui sobre meninos, é 1 ação deliberada da nossa parte aqui, 1 vez que o genocídio negro deu certo, você não vê homem preto em lugar nenhum, acabou, não há quem ligue pra isso, isso se se configura de maneira bastante drástica a nação do estado em relação à presença desses meninos nas escolas. O o plano nacional, o novo PNE, ele precisa já foi dito aqui eu não vou repetir, é fundamental pra pra a gente, de alguma maneira enfrentar essas essa essa complexidade. E ele deve ter, pra terminar eu quero registrar isso aqui. Está comprometido com a melhoria das condições de aprendizagem, e a superação do baixo desempenho escolar de estudantes negros, então existe o dado, existe o dinheiro, existe a identificação do território, a companheiro trouxe aqui alguns elementos, então não é ausência do diagnóstico. A Marta Heinker, nossa colega filósofa, ela morreu já, se eu não me engano ela era chilena, maravilhosa, ela escreve livro, no primeiro ano no governo Lula, que se chama Os desafios da esquerda latinoamericana, e ela saca de 1 frase Dandara foda, que ela diz assim olha, a esquerda latinoamericana especialmente a brasileira, sofre de excesso de diagnóstico, ausência de terapêutica. Porque nós já sabemos. Nós já temos os dados, já temos os índices, e cada dia esses índices se renova, em cada 20 de novembro você tem monte de relatório novo, que vem reafirmar desgraça do dia a dia que a gente já conhece, e não tem ação objetiva focada pra resolver o problema. O PNE pode ser instrumento de foco, de direcionamento de recurso pra ferida mais profunda da chaga histórica brasileira que é a desigualdade racial proveniente dos 4 4 anos de escravidão no Brasil, e nós estamos aqui pra isso muito obrigado.

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