Fernanda do Nascimento Thomaz

Fernanda do Nascimento Thomaz

Coordenadora-Geral da Memória e Verdade da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Pessoas Escravizadas

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29 de nov, 10:30

PLENÁRIO

Transcrição automática

Bom dia a todas a todos e a todos que estão aqui presente. Eu confesso que eu estou muito feliz e emocionada. Eu queria aproveitar pra, saudar, essa juventude toda que está aqui, das estudantes, eu como professora, eu fico muito contente de estar compartilhando esse espaço com vocês, mas também saudar os deputados, sobretudo deputada Andrade, deputada Regimete, deputado Vicentinho, mas também eu gostaria de saudar, o meu grande amigo também João Jorge, a Yara e o Cledison. Bom, eu fico muito feliz por estar aqui, e por podermos celebrar 1 data que remete às nossas memórias mais dolorosas e também das maiores lutas travadas na nossa sociedade, que é o 20 de novembro. A memória de luta e experiência de zumbi de Palmares. Mas ao mesmo tempo, é estranho estar aqui. É a primeira vez que eu falo nesse púlpito. A imagem que na verdade não é imagem é a memória que tem desse lugar, desta casa, é que esta casa pertence a homens brancos, que historicamente debatem discutem e decidem futuro do nosso país. Os mesmos homens brancos que, há muito tempo desumanizaram a minha existência aqui e fora desta casa. 1 desumanização bastante antiga, há tempos nos negar a humanidade, nos transformar em mercadoria em objeto de compra e venda, e nos transformaram em nos transportar de continente a outro. E ainda nos reduziram apenas à força de trabalho. Foram momentos difíceis. Assim neste continente ou melhor neste país, tentaram eliminar não somente a nossas lembranças mais acolhedoras, mas também a nossa existência física. Até criaram teorias e políticas para isso. Chegaram a esconder o quanto foram violentos e opressores conosco. E ainda definiram como se vivêssemos numa democracia racial. Talvez por saber que poderíamos nos revoltar com tanta facilidade. Hoje, somos que mais morremos pelas mãos daqueles que deveríamos proteger. São as mesmas mãos que nos adoecem, e que nos violentam de múltiplas maneiras também. Tudo isso é reflexo do funcionamento dos aparelhos do estado, e que nos marcam a todo o tempo controlando, julgando e muitas vezes ensinando contra a gente. Estamos nas ruas sem moradia, estamos vivendo sem saúde e educação minimamente adequada, mas ainda assim estamos aqui. Não conseguiram concretizar todos os seus objetivos. Estamos aqui sem ser humanizados, mas nós nos autohumanizamos. Criamos 1 própria humanidade como 1 forma de luto e sobrevivência. Somos criativos na busca e na recomposição do amor em nossas vidas, em manter e recriar nossa cultura e em propagar o nosso conhecimento. Ora herdados por quem nos antecedeu, hora transformado em esperança de futuro melhor. As dores e as angústias do presente em conjunto com as heranças e vivência dos nossos ancestrais, nos movem para criar futuro possível. Do sonho de futuro diferente, da criação de mais humanidade para nós. Que provém da crença de que seremos mais respeitados e não seremos assassinados. De termos melhores condições de trabalho moradia e assistência de saúde. Por isso que está aqui também é misto de desconforto e alegria, ao ver tantas pessoas negras, ao ver parlamentares negros aqui celebrando a nossa existência em humanidade. Traz 1 esperança de que a humanidade pode nos encontrar sem dor, sem medo e sem angústia. Mas para isso, precisamos proteger futuro que queremos e nos empenhar no presente que precisamos desapegar e combater. Até porque não basta estarmos aqui celebrando a consciência negra, sem ardência da luta cotidiana. Muito obrigado.

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