CENTRO DE ESTUDOS E DEBATES ESTRATÉGICOS
Sobre o Evento
O Centro de Estudos e Debates Estratégicos realizou audiência para discutir a inclusão digital e produtiva de populações vulneráveis em favelas e comunidades periféricas. O debate abordou o papel da tecnologia, da inteligência artificial e da humanização de algoritmos na geração de renda e na melhoria das condições de trabalho para moradores dessas regiões e motoristas de aplicativos.
Diretor executivo e de comunicação - Federação Brasileira de Motoristas de Aplicativos - FEMBRAPP
Bom, alguns aqui já me conhecem. O André, nosso velho conhecido aí que está na... na outra ponta do nosso trabalho, ajudando a gente bastante com as plataformas. Vamos lá. Bom, eu represento a FEMBRAP. é a Federação de Motoristas por Aplicativo do Brasil... É importante falar um pouco da origem dela. Ela nasce na época da Lei 13.640, que tentava não regulamentar a categoria, sem acabar com a categoria de motorista de aplicativo logo lá no início. Na época ela foi proposta por um deputado que criava uma série de entraves e aí com a ajuda das plataformas, mais especificamente na época da Uber da 99. Obrigado. E da Cabify, ainda existia a Cabify. Elas ajudavam os motoristas a virem para Brasília para conversar com os deputados, para explicar o quanto era importante a geração de renda através dos aplicativos de mobilidade. Bom, nessa época nasceram as associações, já tinham nascido um pouco antes, em 2015, no Rio de Janeiro, foi a primeira do Brasil, a UMPRJ. a qual eu fundei, e depois nessa época que todos os motoristas do Brasil se encontravam em Brasília, a gente viu a necessidade de fazer outras associações... E, posteriormente, uma federação, que é a FEMBRAP. Ela atua em todo o território nacional, a gente participa em audiências, a gente faz aconselhamento para associações. sempre numa luta por melhores condições. E, graças a Deus, na primeira luta que nós tivemos, na Lei 13.640, nós saímos vitoriosos, conseguimos e estamos aqui até hoje. Na época, era uma luta... com parceria com as empresas de aplicativos. O tema muito interessante para mim, deputado, porque eu também sou do Rio de Janeiro, né? E nasci numa comunidade, em Anchieta. E considero meu pai um grande vitorioso, que na época, para tirar a gente de uma comunidade, ele deu instrução. Minha irmã estudou no Colégio Paraíba, em Ricardo de Albuquerque, é uma médica muito conceituada. Eu fiz faculdade, trabalho como motorista de aplicativo hoje, porque eu venho do transporte executivo, falo dois idiomas, estudei, e tudo isso com educação, com ensino e com aprendizado. Isso vem oriundo de conhecimento, e hoje o conhecimento chega muito mais fácil através de um celular, através de uma tecnologia. Então, o tema, para mim, é extremamente fascinante. envolve parte do meu sentido de vida. A atuação dos aplicativos hoje, relacionando as comunidades, aos motoristas que vêm oriundos de comunidade, não são poucos, são muitos, é muito importante. A gente tem uma luta muito grande em relação a melhores ganhos, melhores condições, porque a gente tem uma preocupação, que é saber que a gente é ingerido por algoritmos. Alguém programa o algoritmo para criar lucros para as empresas, levando muitas vezes o profissional à exaustão, levando ele ao risco, porque o algoritmo não tem um sentimento. Então, a nossa principal preocupação é humanizar essa relação. No que tange à questão das comunidades, a gente percebe claramente, que existem aí algumas barreiras e que a tecnologia não consegue ainda, mas caminha para isso, é extrapolar essas barreiras. A gente hoje tem um apoio tecnológico aí para romper fronteiras, para atravessar cidades inteiras, para atravessar países através de aplicativos de mobilidade e também de aplicativo de geolocalização, no caso do Waze, no caso do Google Maps, que são ferramentas acessórias ao nosso trabalho. Mas, assim, a gente não consegue romper barreiras. Por exemplo, a gente tem o problema da segurança na nossa cidade de Rio de Janeiro, Que... É bem complicado quando, por exemplo, uma corrida chama para a gente dentro de uma comunidade. E a gente sabe que a gente não pode entrar, ou se a gente entrar, a gente está correndo um sério risco. E eu vou lhe falar que... Falo bastante do Rio de Janeiro, que é onde eu rodo, onde eu vivo. Mas, assim, que não conheço nenhum motorista que não tem uma história triste por ter passado por uma situação dessa, porque você está ali trabalhando, concentrado no aplicativo, e quando você vê a comunidade que não é mais dentro de um morro, ela se espalha por todo o bairro. Você se vê numa situação com um fuzil na cara, uma pistola na cara, quando não, a gente tem várias e várias notícias de sequestros de motoristas e mortos. A gente não vem aqui só fazer uma explanação sobre essa questão da tecnologia no ganho. A gente aproveita a oportunidade para dar uma sugestão também. Eu acho que seria muito interessante fazer o que já é feito em duas comunidades do Rio de Janeiro, que é a Rocinha e o Morro do Cantagalo. que é meio que um acordo velado ali entre as lideranças da comunidade, vamos chamar de lideranças, ou os supostos donos das comunidades, e os motoristas de aplicativo. A gente deixa na entrada como se fosse uma área de embarque e desembarque. Eu acho que isso aí traz muita conectividade para o morador, que tem a possibilidade de sair dali com segurança. E para o motorista que deixa no local seguro. Nessas duas comunidades isso acontece. A gente já sabe, e tem uma integração muito importante, porque a gente deixa, por exemplo, no Cantagalo, o passageiro na entrada da comunidade. e da comunidade, ao visitar a comunidade, a entrada na comunidade, ele tem que usar o mototáxi da comunidade. Então, você gera renda para a comunidade, quer dizer, existe ali uma... um acerto social, digamos assim, entre motoristas e organizadores daquela comunidade, ou lideranças daquela comunidade. Mas isso não se espalha para as outras, talvez a tecnologia pudesse ajudar. E eu não falo de obra estrutural de um ponto de apoio ali ou de uma área de embarque de embarque. Basta os aplicativos marcarem como aquele ponto ali na entrada das comunidades, e marcarem que só pode pedir corrida dali, são as cercas eletrônicas através dos aplicativos. das comunidades porque muitas vezes cria uma série de animosidades. Quando você é obrigado a... Por força da imposição e do algoritmo, você tem que entrar numa determinada comunidade. Voltando a falar da geração de renda e dos aplicativos, é muito interessante porque a gente viu o quanto os aplicativos são importantes, não só os aplicativos que a gente usa... diretamente para gerar renda que seria, vou citar os nomes aqui, Uber 99, InDrive, tem mais de 600 aplicativos já no Brasil, interior e afora, alguns que já estão tomando um vulto maior, Urbano Norte, e por aí vai. Mas não só esses aplicativos, a gente usa os aplicativos e acessórios, por exemplo, Como eu citei, a gente tem o Google e o Waze para poder fazer o mapa até o local. A gente usa o RadarBoot, que é um aplicativo que informa onde tem especificamente os radares. Muitas vezes os radares mudam de lugar, tem atualizações. Esse aplicativo informa. A gente passa a ter as redes sociais como o grande mural, o grande informativo dos motoristas, porque tudo vai parar na rede social, então é um outro aplicativo. A gente usa o WhatsApp, que também é um outro aplicativo, também é uma tecnologia para a gente fundamental, porque toda a comunicação de motoristas, de aplicativos, entregadores e tudo mais é pelo WhatsApp. Então são mais de 400, 500 grupos que se organizam em cada região para poder se comunicar e a nível nacional e a nível mundial. Eu tenho grupos que eu participo, tem motoristas da Europa, de Portugal, da Espanha, aqui da América do Sul. Então, assim, os aplicativos realmente fazem com que a gente gere renda, fazem com que a gente... tenha conectividade, tenha comunicação e traga evolução social para todo mundo. Mas a gente tem como eu disse, romper algumas barreiras. E a barreira da segurança é uma delas, e a barreira do ganho. dos ganhos através da humanização dos algoritmos para evitar a exploração, porque senão vira uma máquina de moegente. A gente costuma dizer que o indivíduo entra muito iludido para o... trabalhar por um determinado aplicativo, seja ele qual for, a gente vê aí uma série de questões com entregadores, seja com transporte por aplicativo, seja até por aplicativos como o próprio TikTok, que é um aplicativo de geração de renda, como o próprio YouTube, se você não seguir aquelas regras tão rigorosas que os algoritmos determinam para aceitar as metas, Você gera uma renda, mas você não gera uma profissão, quer dizer, você fica ali num período muito temporário. Eu me considero um dinossauro, eu entrei na Uber em 2014, fui um dos primeiros motoristas a entrar e estou rodando até hoje. Mas a maioria dos meus colegas daquela época já não rodam, já não conseguiram aguentar tanto. para uma série de fatores, que é essa produtividade através do algoritmo. Então, se houvesse um pouco mais de humanização, e eu sei que é um grande desafio, porque lida com massas, para você levar benefício a grandes massas, você tem que necessariamente usar os algoritmos. E a nossa batalha, e eu acho que vai ser uma batalha muito longa ainda, é buscar humanização, para essa relação. É uma relação que favorece o motorista, as pessoas realmente geram renda, mas geram, se iludem muito. Hoje, um motorista de aplicativo investe, em média, de 60 a 80, às vezes, 100 mil reais para ter um carro. E esses 100 mil reais, ou esses 80 mil reais, viram o dobro desse valor, porque ele não tem condição para comprar um carro à vista. ele vai comprar esse carro financiado. E, no final da história, a gente vê em 2023 o IBGE apresentando um estudo que 25% do que a gente faz bruto é lucro, o resto tudo é despesa. E não existe uma educação financeira através dos aplicativos para que esse motorista entenda isso. Então, assim, imagina a seguinte realidade hoje. e tem, como disse, muitos colegas de comunidade, O cenário de profissionais começou assim: quando eu entrei, 2014, as plataformas buscavam os motoristas no transporte executivo. Posteriormente, Elas passaram a buscar os motoristas no desemprego, no período que o Brasil estava, aumentou muita quantidade de desempregados. Era comum a gente ver um dentista dirigindo um carro de aplicativo. Depois ela entrou, e hoje acho que é o momento que ela tem mais pessoas de baixa renda trabalhando, rodando, ela entrou não nos desempregados, mas naqueles que estão insatisfeitos com seus empregos. E também baixou muito a idade desse profissional. Hoje a maioria são jovens, não são homens de meia idade para cima. O jovem tem um emprego que ele ganha um salário, um salário e meio, trabalha na jornada de seis, sete dias por semana, folga um. E aí, não tem nenhum carrinho para rodar, muitas vezes se tem, é um carrinho muito velho, muito caidinho. Se ele pega aquele carrinho velho, ou aquela motinha que ele tem, ele vende. Junta mais um pouquinho, dá uma entrada, ele compra um veículo em 60 vezes... esse veículo financiado, ele começa a rodar com esse veículo, ele dá um jeito de ser demitido no emprego dele, ele tem cinco meses de auxílio-desemprego, E... Nada impede que ele rode, que ele gere renda com aquilo, hoje, atualmente. E não existe um cruzamento de informação, porque se ele arrumasse um outro emprego, ele não poderia receber o auxílio de desemprego. Então, ele tem uma garantia de cinco meses. Nesses cinco meses, o status social dele faz um upgrade, porque ele não tinha uma conta de banco, ele passa a ter uma conta. A maioria dos aplicativos oferece uma conta bancária. Junto também vem empréstimos, cartão e tudo mais, coisa que ele não tinha. Ele movimenta financeiramente num banco, seis mil reais em média por mês, cinco a seis mil reais. Só que o lucro é 25%. Ele está ganhando praticamente a mesma coisa que ele ganhava. E ele não percebe isso. Com um cartãozinho de crédito com 6, 7 mil reais na conta todo mês... ele começa a gastar esse dinheiro. O nosso trabalho é repleto de imprevistos, né? É... Você sai na rua, é um pneu que fura, é um carro que bate, é um assalto, é uma coisa qualquer, que sempre tem previsto. Você fica 10, 12 horas na rua, você está... propício a milhões de imprevistos. Nesses imprevistos, no primeiro, ele acha que é azar, No segundo, ele acha que é olho gordo do vizinho do lado, que agora ele tem um carro e tem uma condição melhor. No terceiro, ele está desesperado. No quarto, ele está comprometendo todos os cartões de crédito da família inteira. para poder bancar aquela despesa para gerar aquela renda, No quinto, ele sai daquele carro, que ele já perdeu o carro para a financeira, vai para o carro alugado, até que ele já está trabalhando 15 horas por dia, 16 horas por dia, ele já está trabalhando 7 dias por semana, ele voltou a perder a qualidade de vida que ele tanto desejava que ele teve por um período, sem perceber que ele fez só parte de uma engrenagem que mói um ser humano. Afinal de tudo, é moer um ser humano. Se ele tivesse uma educação financeira, se ele tivesse uma consciência que a lucratividade dele, dita pelo IBGE, e eu acredito, participei muito de um próximo desse estudo, 25% somente... Ele saberia que ele pesaria, que olha, entre eu ter um salário, um salário e meio... Fundo de garantia, férias e todos os meus direitos garantidos. e trabalhar para alguma coisa que me aumenta, é um risco muito grande, me dá uma probabilidade de perda maior ainda. Para ganhar praticamente a mesma coisa... Eu acho melhor eu ficar no meu emprego ou procurar um emprego melhor, ou estudar dentro do que eu faço para melhorar no que eu faço. Então a gente tem que ter esse cuidado, porque esses algoritmos, eles levam a gente para um caminho que mõe gente. Ele ajuda por um momento? Ajuda. Dessa leva de pessoas que entram, a gente não tem as estatísticas, porque os dados de controle de quem entra e quem sai são dos aplicativos, não são dos motoristas e não são divulgados. são considerados informações sensíveis para as plataformas, esses dados e essas pessoas que saem, eu sei porque me procuram na associação, me procuram na federação, sempre saem com problemas. sempre saem banidos indevidamente, sempre saem banidos sem a menor satisfação, sempre saem... às vezes até devidamente são banidos. Aconteceu o caso de um rapaz me relatar o que ele tinha feito, que foi um gesto de homofobia, E ele falou, mas eu não fiz nada, porque ele não foi orientado o que não fazer. Porque ele era de uma geração que era normal ser homofóbico, fazer uma brincadeira de mau gosto, e que hoje em dia não cabe mais, a gente evoluiu como sociedade. Então, assim, não há treinamento, não há informação, não há nada, há sedução. Uma sedução para um ganho que realmente acontece, mas que ele não perdura. Para piorar a situação... é um estímulo muito grande das mentorias, dos ensinamentos de motoristas para motoristas. Alguns motoristas percebem claramente que a dificuldade de gerar renda desses motoristas é latente, que eles querem ganhar mais, então eles começam a divulgar publicamente seus ganhos. É assustador o indivíduo falar, olha, eu não consigo entender como é que um motorista de aplicativo não faz mil reais no dia. Eu consigo entender, porque eu rodo de verdade, eu rodo inclusive vários dias por semana, eu consigo entender. O cara que faz isso, aí o cara mostra um slip de ganho na internet, fala uma fala bonita, no final ele vende uma mentoria, ele vende uma rifa, ele vende alguma coisa, quer dizer, ele não está ganhando dinheiro com o aplicativo, ele está ganhando dinheiro com a rifa, com a mentoria, ele está ganhando dinheiro com os vídeos que são monetizados, Entendeu? E... faz com que mais motoristas tentem continuar, tentem perdurar e aumentem o sofrimento futuramente. Lógico que nem todos são mal-sucedidos, alguns são bem-sucedidos. Eu só não tenho um dado estatístico para apresentar para vocês de quem são os bem-sucedidos e quem são os mal-sucedidos, porque, como eu disse, esses dados não são abertos para a gente. Mas a gente tem a sensação, por ouvir os motoristas, por ajudar os motoristas o tempo todo, que mais motoristas saem mal-sucedidos atualmente do que bem-sucedidos. Isso é lamentável enxergar isso, porque eu acho que uma profissão nobre, eu acho que é... ligar pontos, de levar pessoas do ponto A ao ponto B, utilizando a tecnologia é fantástico. Então, como eu volto a dizer, e para finalizar, a nossa busca e a nossa luta É constante por humanizar esses aplicativos, humanizar esses algoritmos. Tá bom? Basicamente é isso que eu teria a trazer. Obrigado. Muito obrigado, Dani.




