COMISSÃO DE CULTURA
Sobre o Evento
A Comissão de Cultura realizou audiência pública para debater a criação do Dia Nacional das Mulheres no Setor Marítimo. O evento focou na importância de ampliar a representatividade feminina em espaços historicamente masculinos, discutindo desafios de igualdade, segurança e o reconhecimento profissional dessas trabalhadoras.
DIRETORA DE GÊNERO E JUVENTUDE DA CONTTMAF
Boa tarde a todos que nos acompanham remotamente, que estão aqui presentes. É uma satisfação imensa, Jandira, estar aqui lado a lado com você, que eu acompanho há muito tempo o seu trabalho aqui na Câmara. Tenho uma admiração profunda e queria agradecer muito por você ter acolhido o nosso projeto, não só por esse projeto, e por tudo que você vem fazendo pela Maria Mercante e pela Indústria Naval todos esses anos. Eu queria começar a minha fala de um lugar muito pessoal. Quando, para falar um pouquinho de como eu cheguei a bordo, eu ouvia, e eu nunca esqueci isso, que para estar a bordo a gente tinha que ser um pouco louco, a gente não podia ser muito normal. Aqui tem. E, de certa forma, fazia sentido, porque a vida embarcada não é simples, São meses longe da família, dos filhos, dos amigos, longe da nossa rotina, da nossa vida em terra. É um ambiente confinado, intenso, onde convivemos com pessoas que, num primeiro momento, a gente não conhece, mas que, às vezes, viram amigos para a vida toda. A gente aprende a dividir espaço, saudade, responsabilidade, aprende a confiar e aprende a resistir. Mas quando essa experiência é vivida por uma mulher, ela ganha camadas a mais. Porque além de todos esses desafios, que são comuns a qualquer marítimo, nós mulheres enfrentamos outros, muitas vezes invisíveis para quem está de fora. Somos minoria a bordo e isso por si só já muda tudo. Ser minoria significa muitas vezes ser observado o tempo inteiro. e precisa provar todos os dias que merece estar ali. Enquanto um homem pode ser apenas mais um profissional, a mulher frequentemente precisa ser melhor, mais forte, mais resistente, para ter o mesmo reconhecimento. Existe uma cobrança silenciosa, mas constante, por desempenho acima da média. Como se o erro não fosse permitido, como se representar o nosso gênero fosse uma responsabilidade individual de cada um de nós. E, infelizmente, essa não é a nossa única dificuldade. Muitas mulheres já enfrentaram situações de desrespeito, isolamento, bullying, em alguns casos até assédio. Também lidamos com desafios estruturais, como já comentamos aqui. falta de instalações adequadas, ausência de políticas claras de acolhimento, pouca representatividade em posições de liderança, dificuldade de conciliar maternidade com a carreira e, muitas vezes, a solidão de ser a única mulher a bordo. E mesmo assim nós seguimos, seguimos trabalhando, aprendendo, liderando e abrindo caminhos. E é importante dizer, ninguém faz isso sozinha. Ao longo desses 25 anos de mulheres a bordo no Brasil, o apoio institucional teve e continua tendo um papel fundamental. O Sindimar, a nossa federação, a FNTTAA e a Contimaf têm sido parceiros importantes nessa caminhada, dando visibilidade às pautas das marítimas, acolhendo denúncias, promovendo debates e lutando por melhores condições de trabalho, mais segurança e mais igualdade de oportunidades. Esse suporte faz toda a diferença, porque fortalece quem está lá na ponta, muitas vezes enfrentando esses desafios de forma silenciosa. E é por isso que discutir a criação do Dia Nacional das Mulheres no Setor Marítimo no Brasil é tão importante. Não se trata apenas de uma data simbólica, se trata de reconhecimento, dar visibilidade a histórias que por muito tempo ficaram invisíveis. De dizer de forma clara que as mulheres pertencem a esse espaço. Se trata também de inspirar. Porque quando uma menina vê que existem mulheres no mar, nos portos também, que temos muitas portuárias, liderando máquinas, liderando equipes, ela passa a entender que esse também pode ser o lugar dela. E se trata principalmente de compromisso, compromisso com o setor mais justo, diverso e mais humano. Compromisso com políticas que garantam segurança, respeito e igualdade de oportunidades. Criar esse dia é reconhecer que ainda há desafios, mas também é afirmar que estamos dispostos a enfrentá-los. Eu tenho muito orgulho de fazer parte dessa transformação. E ainda tenho mais orgulho ainda de todas as mulheres que vieram antes de mim, que abriram portas em condições ainda mais difíceis, e de todas que estão hoje a bordo, resistindo, conquistando espaço e fazendo história todos os dias. Que esse dia não seja apenas uma celebração, mas um marco de reflexão e de ação e de mudança. E eu queria reforçar muito isso, que a gente, às vezes, a bordo tem que... O trabalho é o dobro... para ter o trabalho reconhecido como de um homem. Eu ouvi isso de um comandante, muitos anos atrás, ele falou textualmente isso, no primeiro dia que eu pisei a bordo. Você vai ter que fazer o dobro... para ser reconhecida. Então, é uma questão até de mudança cultural também. A gente precisa ir batendo nessa tecla para Mudar mentes e corações. E agradeço mais uma vez, Jandira, se abriu esse espaço para a gente. Obrigado. A senhora Cristina...



