
A Coordenadora do The Donkey Sanctuary esclarece que o colágeno de jumento em desenvolvimento é um produto biologicamente idêntico, e não vegetal, obtido via fermentação de precisão. Ela agradece ao deputado pelo apoio à pauta no Parlamento, defendendo que o abate de jumentos deve ser proibido com base em evidências científicas e alertas sobre riscos sanitários e ambientais, traçando um paralelo com o descaso científico observado na pandemia de Covid-19.
A Coordenadora do The Donkey Sanctuary aponta a necessidade urgente de mais estudos e políticas públicas voltadas para animais ferais naturalizados, especificamente aqueles que vivem em regiões remotas como a Caatinga e não interagem com humanos, dificultando o monitoramento e o manejo dessas populações.
A Coordenadora do The Donkey Sanctuary alerta para o risco de extinção dos jumentos no Brasil até 2030, impulsionada pelo abate. Defende a proibição dessa prática e propõe um futuro sustentável para a espécie, que inclui seu papel como animal de companhia, o uso na agricultura familiar em regiões como o Cisal e a preservação de populações que ocupam ecossistemas nativos de forma independente, criticando abordagens que exigem tutela constante sobre esses animais.
A Coordenadora do The Donkey Sanctuary discute problemas técnicos durante uma apresentação virtual, relatando dificuldade em compartilhar corretamente os slides para os participantes, mesmo após tentativas de ajuste no modo de exibição.
Bom dia a todos e a todas. Muito obrigada pela presença e agradeço mais uma vez ao deputado, que foi o pioneiro no mundo a provocar uma audiência pública no Congresso Nacional para tratar do assunto do comércio de pele de jumentos. A primeira audiência foi em 2019, tivemos em 2023 e agora mais uma. A gente... Então, meu nome é Patrícia Tatemoto, eu sou bióloga, tenho mestrado, doutorado em medicina veterinária. O primeiro pós-doc também foi em Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal pela USP. E agora eu faço meu segundo pós-doutorado em Neurociência. Bom dia. É preciso. Obrigado. Um anterior problema. Então, eu vou falar sobre o tema da audiência pública agora. Eu que mudo, né? No Brasil, a gente já teve o maior efetivo populacional de jumentos da América Latina. Na década de 90, eram 1 milhão 370 mil animais. E hoje a gente encontra esse colapso populacional. Quando a gente contrasta dados oficiais do IBGE e do Agrostat, de abatedoros que têm o Serviço de Inspeção Federal, a gente chega num número alarmante de uma redução populacional de 94%. E isso em função de um comércio de pele de jumentos internacional, como o Eduardo bem demonstrou, para atender a medicina tradicional chinesa. A demanda hoje está em 5,9 milhões de peles por ano. Em média, em 2021, eram 6 mil animais abatidos... nos abatedouros com serviço de inspeção federal, que, portanto, permitem a exportação dos seus produtos. Obrigado. E foi demonstrado extensivamente que há uma atividade extrativista, que coloca em risco a biossegurança, a saúde pública, compromete o bem-estar dos animais... E vai levar o nosso jumento à extinção. E quando nós começamos a trabalhar nessa pauta em 2018, nós conseguimos demonstrar junto ao Ministério Público, em algumas apreensões, que havia maus tratos. Era indefensável a forma como os animais eram mantidos. transportados, mantidos sem água e alimentação, sem cuidado veterinário. E aí nós pensamos que com a demonstração dos maus tratos, em um caso em 2018, em Itapetinga, com 3 mil animais, e depois em 2019, com 800 animais, nós conseguiríamos proibir a atividade. Porque era muito útil. E nós temos um arcabouço legal que veda. os maus tratos aos animais. Então, além da Constituição Federal, temos outros instrumentos legais que vedam os maus-tratos aos animais, que era claramente demonstrado nessa atividade. Obrigado. Depois nós levantamos a possibilidade de ter risco à saúde pública. Doenças infectocontagiosas de caráter zoonótico que eram negligenciadas. Isso era uma suspeita pela falta de rastreadibilidade. Nenhum desses animais tinha GTA, que é a guia de trânsito animal, que é um documento obrigatório para trânsito, principalmente quando o trânsito desses animais é interestadual, nenhum animal tinha. Então, a gente demonstrou que não havia rastreadibilidade. Ou seja, animais abandonados, animais sem carteira vacinal, sem controle sanitário, eram transportados, acumulados e abatidos. Então, nós demonstramos isso também junto ao Ministério Público e pensamos agora, nós temos todas as provas, porque o órgão de defesa sanitária do Estado da Bahia fez os exames, mostrou que havia mormo, 10 casos positivos de mormo, que é uma doença Também zoonótica, que gera sinais clínicos de uma doença respiratória e é altamente letal. Mas isso não foi suficiente para proibir a atividade. Então, demonstramos nessa apreensão de mais de 800 animais, que 10 animais estavam positivos para mormo e 14 para anemia infecciosa equina. Também demonstramos trabalho análogo ao escravo. As pessoas encontradas na fazenda não tinham documentação. Essa casa não tinha banheiro, não tinha cozinha. Em 2018 também foi demonstrado trabalho infantil e nós pensamos, agora nós temos muitos elementos para proibir essa atividade. E na primeira audiência pública que nós estivemos aqui em 2019, uma das pessoas daqui da audiência falou que os jumentos causam impacto negativo aos ecossistemas nativos brasileiros, a Caatinga, por exemplo. E a primeira pergunta que eu fiz é, onde está essa publicação científica? Não existe nenhuma publicação científica hoje, a ciência não demonstrou que os jumentos causam impacto negativo em ecossistemas nativos. brasileiros. Ao contrário, o que existe são outras publicações em outras partes do mundo, mostrando que os jumentos fazem controle de espécies invasoras, eles consomem plantas que outras espécies nativas não consomem, Eles conseguem encontrar água e trazer água à superfície, eles cavam poços, tem publicações inclusive na Science. Promovem dispersão de sementes, fazem restauração ecológica. e contribuem para a restauração da megafauna, que foi extinta no final do Pleistoceno, de uma outra era geológica, E religam teias alimentares. Então, o que a gente tem, sim, são publicações científicas demonstrando na Bélgica, na Alemanha, nos Estados Unidos... Papéis Ecológicos Positivos dos Jumentos. No Brasil, nós não temos nenhum estudo sistematizado, cumprindo toda a robustez metodológica da ciência para afirmar que eles causam impacto ecológico negativo, mas temos sim indicações diferentes do contrário, que eles podem fazer e atuar na gestão de ecossistemas nativos. Também foi publicado um artigo mostrando que esse jumento que a gente tem aqui no Brasil, o jumento nordestino, já é um recurso genético. O que isso significa? Esse genoma dele, o código genético do jumento nordestino, não acontece em nenhum outro lugar do mundo. Como o deputado bem mencionou no início da nossa conversa, que os jumentos nordestinos são únicos no mundo todo. Quando a gente perde biodiversidade, nós comprometemos a nossa própria capacidade de resiliência. É isso que a gente tem feito. Então, quanto mais a gente perde espécies, perde biodiversidade, recurso genético, mais fragilizada fica a nossa própria capacidade de resiliência e tem essa publicação. Obrigado. Depois falaram que isso vai causar um grande impacto econômico nas cidades que têm os abatedouros. O que nós demonstramos, e estamos organizando esse estudo, é que não. Que essa atividade eventualmente vai acabar por ser extrativista, que os abatedouros, enquanto eles estão operando, isso não mudou a receita do município, e que os abatedouros operam em prejuízo. Por quê? Porque são abatedouros... que é o petacavalos. E o jumento é muito menor. Então, a gente sabe que na China, o governo chinês subsidia as fazendas que têm jumentos. É uma atividade custo-proibitiva. Mesmo os abatedouros dessas cidades, eles já operam em prejuízo, e a gente demonstrou com números que isso não altera a receita e os impostos do município, ou seja... Esse argumento também não é válido, é falacioso. Obrigado. Também falaram que a gente poderia produzir jumentos. Então, já que existe uma demanda, existem jumentos no Brasil e temos condições climáticas... um país com inegável vocação agrícola, e o que os estudos demonstram, de novo, é que é uma atividade custo-proibitiva. Tanto é verdade que nem a China tem conseguido atender a demanda de jumentos. Eles tinham um milhão de animais e hoje tem um pouco menos de um milhão e meio. Ou seja, essa atividade sempre acontece de forma extrativista. Por quê? O jumento tem limitações fisiológicas que impedem o crescimento, não tem o melhoramento genético que a indústria intensiva da pecuária utiliza para outros animais, Então, enquanto um suíno tem por parto muitos animais hoje, em função do Melhoramento, o que a gente fala muitas vezes na área de bem-estar animal, da ciência do bem-estar, é pioramento genético, porque compromete a saúde e o bem-estar desses animais. Os jumentos não têm essas características diferentes. genéticas para produção. E como o Eduardo já demonstrou, em um rebanho de 200 mil fêmeas, isso é um estudo da Universidade de Reading, da Inglaterra, levaria 15 anos para fornecer 1,2 milhões de peles. Mas a gente ainda tem outras limitações em relação aos jumentos, porque não é possível mantê-los de forma intensiva em grandes grupos. em função da biologia da espécie. Então, a gente teria mil fêmeas, 854 jumentos por ano, e, de novo, nem a China tem conseguido atender, não é uma solução viável, nem economicamente, produzir jumentos em fazendas. Obrigado. E nós temos uma solução biotecnológica. que é produzir o colágeno de jumentos com a mesma tecnologia que hoje a gente produz insulina. Antigamente, a insulina era retirada de abatedores, com risco à biossegurança, risco à saúde pública. E depois de um tempo, desenvolveram uma tecnologia, um protocolo de laboratório, para desenvolver em biorreatores. E é isso que a gente propõe hoje. Então, a professora Carla Molento... Ela tem um laboratório na Federal do Paraná e ela tem desenvolvido esse protocolo, essa prova de conceito, para a gente conseguir atender a demanda da China, sim, gerar empregos seguros, receita, impostos, arrecadação de impostos, mas de uma forma ética, sustentável e segura. Tem um livro que se chama Economia Dunnett, e ela fala: "Você nunca muda as coisas lutando contra a realidade existente". Para mudar algo, construa um novo modelo que torne o existente obsoleto. A nossa ideia é transformar o abate desses animais em uma atividade obsoleta. E aí falam sempre também, os jumentos estão causando acidentes em rodovias. A gente sabe que existe um dado que fala que são 475 milhões de animais silvestres envolvidos em acidentes todos os anos no Brasil. Então vamos mandar os animais silvestres para os abatedouros para contornar esse problema? Não, o que a gente tem é uma falta de política pública em relação à segurança das estradas. Um colega meu, um amigo meu, Denis Sato, ele desenvolveu o doutorado dele. com uma pesquisa para desenvolver um software que vai reconhecer os animais em rodovias e gerar alarmes. Então, essa tecnologia já existe, é um sistema computacional de identificação de animais em rodovias, Foi um estudo de doutorado da USP... E ele poderia ser implementado nas rodovias. O que a gente precisa é implementação de políticas públicas para aumentar a segurança das rodovias e não usar a desculpa de enviar os animais para os abatedouros para contornar essa situação. No estado de São Paulo, são as capivaras que estão envolvidas. Ninguém considera mandar capivaras para o abatedouro para contornar o problema dos acidentes em rodovias. Isso seria inaceitável. E nós também temos quando as pessoas perguntam quais são as soluções... Então, o que a gente vai fazer? A primeira solução, que eu vou dizer para vocês, é suspender o abate imediatamente. Mas nós temos um grupo, esse foi o quarto ano, um grupo de cientistas do Brasil e do mundo que discutem o que seria o futuro sustentável dos jumentos. Então, essa aliança conta com um diálogo com a evidência científica organizado por universidades federais do Brasil, e reúne atores chaves. Então, a gente tem uma lista de argumentos e de evidência científica robusta. Se hoje a gente escutar a ciência, nós vamos proibir o abate dos jumentos. Mas a ciência tem sido ignorada. nesse quesito. E não é sempre que a ciência encontra consenso, porque faz parte das regras da ciência a gente ter refutabilidade e ter divergência. Mas, nesse caso, nós encontramos um consenso. Então, cientistas nacionais e internacionais declararam no ano passado estado de emergência. em relação ao abate dos jumentos após a perda de 94% da população, é reconhecido como um patrimônio genético e cultural único, e isso gera, conforme a gente perde esse animal, gera um risco ambiental, sanitário, social, Tudo isso documentado pelos cientistas e a recomendação formal desse grupo que se reúne já no quarto ano é a suspensão imediata do abate. Nós temos trabalhado com advocacy, os tomadores de decisão estão cientes do que tem acontecido, estão cientes do abate e das recomendações dos cientistas. Nós tivemos o papel cultural, o patrimônio histórico cultural do jumento, celebrado aqui no Salão Nobre. Então, isso para mostrar o quanto que os nossos tomadores de decisão estão cientes sobre o que está acontecendo. E nós vimos também um aumento do capital simbólico dos jumentos. Antes era tratado muito de forma pejorativa esse tema, e hoje as pessoas entendem a gravidade desse assunto. Tivemos mobilização pública, isso significa que a sociedade civil organizada Também. apoia o fim do abate. Nós temos as nossas sociedades... protestando para que o abate seja proibido, Nós tivemos também uma grande cobertura midiática até hoje, dizendo de novo, que não é por falta de conhecimento, não é por falta de informação que esse abate ainda continua. E nós temos projetos de lei, além de várias outras ações, ações jurídicas, ações com o Poder Executivo, que a gente tem tentado proibir o abate, nós temos projetos de lei. E nessa casa, nós temos o 2387 de 2022, que está agora na CCJ e que precisa tramitar. É um PL terminativo, assim que ele for aprovado na CCJ, ele vai para o Senado e depois sancionado. Mas a gente não tem tempo. Nós não podemos esperar como um PL tramita muitas vezes com morosidade. que essa seja uma tramitação célere para dar tempo de proteger o nosso patrimônio histórico, cultural e nosso recurso genético. Então, concluindo, não há lacunas científicas. O que há é uma falha na resposta. Nós vimos que existe um problema de abate de jumentos, que não é só do Brasil, é global. A União Africana já caminhou, ouvindo a ciência e proibiu o abate em uma decisão continental. 55 chefes de Estado proibiram o abate dos jumentos cidadãos. na União Africana. Então, existe esse problema. Existe evidência científica robusta de todas as áreas, desde a economia até a veterinária, mostrando que o abate precisa ser proibido. Mas temos ainda a conscientização, awareness, conscientização tanto da sociedade civil organizada quanto dos tomadores de decisão. Todos estão informados e sabendo o que está acontecendo. E todas as diligências necessárias. Então, o que a gente conclui com isso é... O que falta? O que falta a gente fazer ainda para conseguir proibir o abate? Nós temos evidência científica, nós temos a conscientização, o conhecimento das pessoas que devem nos ajudar a proibir, Apesar de tudo isso, o abate ainda continua no Brasil. Então, eram três abatedouros que funcionavam, hoje resta apenas um. A gente percebe que existe uma alta captura política do tema, interesses pessoais instalados, com bloqueios institucionais, Se não fosse isso, o abate já teria sido proibido. E nós usamos números para fazer o convencimento, os números alertam e trazem esse tom de emergência, de urgência, de 5,9 milhões de peles por ano, mas é válido lembrar que o sofrimento dos animais sempre acontece em nível individual. Muito obrigada. Obrigado, Patrícia. Antes de passar a palavra...
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