COMISSÃO DE CULTURA
Sobre o Evento
A Comissão de Cultura promoveu audiência pública para discutir a criação do Estatuto do Trabalho Cultural. O objetivo é estabelecer um regime jurídico específico que reconheça as particularidades do setor, como a intermitência e a informalidade.
DIRETORA DO CENTRO DE ARTES TÉCNICAS DA FUNARTE
Eu quero complementar todos os meus parceiros de trabalho. Quero começar me apresentando, né? Sou Carila Marzenbacher, eu sou coordenadora geral de difusão na Funarte. E um dos equipamentos que a gente cuida aqui é o Centro Técnico das Artes. E aí eu vim, chegando nesse momento, entendendo o começo, meio, começo, nas palavras de o bispo, entendendo porque a gente chega nesse momento, a partir dessa discussão tão essencial, Fico pensando que tem muito desse começo, a partir do que o nosso próprio presidente trouxe ontem na fala dele, na aprovação do decreto da Política Nacional das Artes. É... A PNEAL nos convida, e aí eu vou ler um pouco, porque eu também sou técnica, e também, como Rosiane, fico nervosa, então preciso me embasar num texto. A PNA nos convida a reformar algo que parece simples, mas é profundamente estruturante. O direito às artes é um direito de todo o povo brasileiro. O beneficiário da política pública não é o artista individual. nem o trabalhador isolado, mas o público, a sociedade, a população brasileira em toda a sua pluralidade. E é justamente por isso que a política nacional das artes reconhece os agentes culturais, e aí é esse termo que está lá no texto do PNA, como centrais não como beneficiários finais, mas como os principais promotores do direito às artes. Os agentes culturais, nós, somos o meio pelo qual o direito à arte se realiza. Somos... Somos nós que criamos, produzimos, organizamos, sustentamos e difundimos as artes no território. Esse entendimento é muito potente porque ele muda o eixo da discussão. Ele nos permite dizer com clareza: os trabalhadores e as trabalhadoras das artes são os instrumentos do direito o ed cultural. Exatamente por isso precisam estar protegidos, reconhecidos, amparados por um regime jurídico à altura da importância que tem. E é nessa chave que a gente enxerga o Estatuto do Trabalhador e da Trabalhadora da Cultura, das Artes e dos Eventos. O Estatuto não é um fim em si mesmo, ele é um instrumento da Política Nacional das Artes, um instrumento para garantir que quem sustenta o direito da população às artes tem uma proteção social condições dignas de trabalho e reconhecimento profissional. Quando dizemos que a cultura é... estratégia, precisamos ir além do discurso simbólico. Cultura é infraestrutura, infraestrutura da vida, como dizia meu antigo diretor José Celso Martinez Correia, A cultura organiza o modo como a gente vive, sente, pensa e se reconhece no mundo. Assim... como estradas sustentam o deslocamento, as redes sustentam a comunicação, o trabalho cultural sustenta o imagiário, a memória, o protecimento e a democracia. Obrigada. a infraestrutura não se improvisa. Infraestrutura exige política pública, planejamento, continuidade e direitos. E na FUNARTE, a Política Nacional das Artes, ela está se materializando também na forma como a gente olha os processos. E aí eu queria falar para vocês, não sei se todo mundo sabe, mas a gente tem um grupo de trabalho das artes técnicas, das áreas de artes técnicas, que inclusive a Luciana e a Rosiane são integrantes desse EGT, Né? que parte do reconhecimento de algo muito concreto, que a gente já discutiu muito aqui hoje, Não existe arte ou cultura sem trabalho técnico, e não existe trabalho técnico sem concepção artística. Então, a gente entende que o estatuto deve nos ajudar, de forma cuidadosa, sem slogan, a romper a fronteira histórica que separa artista e técnico. Se a gente entende É... Obrigada. muitas vezes, me perdi aqui, muitas vezes de forma hierárquica, como se fossem mundos distintos ou desiguais dentro da mesma produção. A gente tem que romper essas barreiras. E o estatuto, ele é um regulamento para isso, né? Ele deve reconhecer que criação, execução, técnica, produção, gestão, e operação são parte de uma mesma cadeia de valor cultural. Eu falo isso também a partir do meu corpo e da minha trajetória. Eu sou cenógrafa, eu sou carnavalesca e malucia, eu sou carnavalesca da série Prata, do Carnaval Carioca. E aí queria trazer os trabalhadores do carnaval também para essa discussão. A gente está trabalhando num campo muito plural de trabalhadores, É... os trabalhadores do carnaval vão se beneficiar muito, enormemente, a gente conseguir chegar nisso também, né? É... E eu venho de um campo onde a separação nunca faz sentido. A criação acontece junto com a técnica, o conceito já nasce junto com o fazer. O espetáculo só existe porque muitas mãos passam e constroem juntas, né? E é por isso que eu considero esse estatuto corajoso pela quebra de hierarquia, por entender todos os trabalhadores da cultura, né? corajoso porque enfrenta o desafio de criar um marco legal, que abrange uma diversidade imensa. Pensa. de linguagens, ofícios, territórios, modos de trabalho, memória, corajoso porque reconhece a intermitência e a descontinuidade não como falhas, mas como característica estrutural do trabalho nas artes, e corajoso, sobretudo, porque é necessário. Corajoso porque vai gerar transformação. e precisa de um grande trabalho ainda para gerar essa transformação, e de muitas opções. Porque a transformação lá gera tensão. E a política nacional das águas não ensina que os agentes culturais são os trabalhadores, os trabalhadores que garantem um direito coletivo. Trabalhadores que precisam de proteção social para que o direito às artes não seja sustentado pelo sacrifício individual, pela informalidade permanente ou pelo esgotamento. Essa luta não é nova. Ontem, no seminário, alguém lembrou de uma frase que atravessa o tempo, né? E que de algum jeito me marca a mão. Não me peça para dar a única coisa que tenho para viver. Quem disse essa frase foi a atriz Cacilda Becker, MAPI... pioneira na luta pelos direitos dos trabalhadores da cultura, né? Cacilda, ela... conseguiu desinstitucionalizar a carteirinha do profissional dos atores, né, dos atrizes, e ela é anterior à Lei 6533, então eu invoco a memória e a luta e a significância de Cassio da Becker, que inclusive dá nome a um dos nossos equipamentos aqui na Rio de Janeiro, né. Compreendendo que não há dignidade possível quando se exige do trabalhador das artes a entrega total da sua vida sem garantia, sem direito, sem proteção, coisa que todo mundo aqui sabe, né? Eu queria encerrar É... dizendo que olhar para o estatuto, a partir da Política Nacional das Artes, nos ajuda a enxergá-lo não como uma regulamentação excessiva, mas uma base de sustentação. e que existe algumas alguns cruzamentos que a gente precisa entender, e aí falando já numa ação mais prática, né? A gente fala de... de cadastro nacional. A FNAPT acabou de lançar uma plataforma, né, que se chama Rede das Águas, Acho que... cujo objetivo também é criar um cadastro. Então, como a gente cruza isso? Como a gente cruza essas ações que a gente sabe que cadastro é um assunto delicado, que em excesso pode ser, como o próprio Frederico falou, um grande problema. Então, como a gente identifica essas políticas já em ações para institucionalização mesmo do estatuto, né? É... E é isso, queria parabenizar o trabalho da ANT, de todo mundo até aqui, nos botar à disposição, amanhã a gente tem uma reunião importante também com os sindicatos na FUNAT, E também... Agradecer, agradecer a todo mundo. Nós é que agradecemos pela sua participação, Carila, Muito obrigado pela sua fala, pelas suas reflexões.




