CENTRO DE ESTUDOS E DEBATES ESTRATÉGICOS
Sobre o Evento
O evento debateu o Plano Nacional de Juventude, enfatizando que a saúde mental é indissociável de questões socioeconômicas, estruturais e territoriais. Especialistas e parlamentares destacaram a influência do racismo, do patriarcado e da precarização na vulnerabilidade de jovens negros, indígenas e quilombolas, defendendo políticas públicas interseccionais que integrem saberes ancestrais, garantam direitos territoriais e combatam desigualdades históricas.
Coordenador do Laboratório de Comunicação - Engajamundo
Obrigado, deputada Dandara. Logo de início, já quero cumprimentá-la e agradecer a todos do SEDES por me promover esse espaço. Acredito que é de muita importância. Também cumprimento os consultores legislativos desta Casa, como também os representantes da sociedade civil, e, principalmente, as juventudes que nos acompanham dentro dos territórios brasileiros. Eu me chamo Ítalo Juan Leito Martins, eu sou um jovem de 20 anos de idade, nascido e criado na zona rural de São José do Bonfim, na Paraíba. Sou filho de dois agricultores e apaixonado pelo território que vivo. Sou coordenador do Laboratório de Comunicação do Engagem Mundo, rede formada por jovens, e liderada por jovens, com a busca de promover resoluções para as maiores crises, sejam elas climáticas ou sociais do Brasil e do mundo. e membro do comitê de jovens do Instituto Cactus que organização filantrópica voltada para ampliar os debates sobre prevenção de doenças e promoção de saúde mental no Brasil e antes de trazer qualquer consideração para essa casa devo agradecer a senhora relatora e toda a equipe em pautar uma discussão tão necessária que é a chance de fazer com que jovens sejam vistos vistos e sintam-se enxergados pela sociedade. Inicio a minha reflexão me utilizando das palavras de Geraldo Vandré, no auge da ditadura militar, que atravessa o tempo permanecendo profundamente atual e que se consolidou como símbolo de resistência coletiva. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. A força dessa afirmação ecoa como o chamado urgente, não apenas a ação mas a responsabilidade que carregamos diante do nosso tempo. Quando estive pensando, o principal objetivo para realizar minha palestra neste momento Lembrei de uma conversa que eu tive com um jovem da minha comunidade sobre saúde metal. Eu parei e eu perguntei, O que é que você acredita ser saúde mental? Ele sinceramente me respondeu: Eu não sei o que é. Eu acho que é quando vamos no psicólogo ou quando vamos no médico. E isso me lembrou a promulgação da lei nº 10.216, de 2001, A nossa lei da reforma psiquiátrica. E esse foi um passo que o Brasil deu... civilizatório ao dizer que não iríamos mais aceitar muros para tratar a dor da alma. Mas, passados mais de 20 anos, o que eu vejo no meu território E o que os estudos e as pesquisas apontam é que derrubamos os muros dos manicômios, mas ainda não construímos as pontes necessárias para que o cuidado chegue no território em que diversas comunidades lutam diariamente. para existir. E ainda eu quero trazer dados da OMS, que diz que 50% das condições de saúde mental de vida começam até os 14 anos de idade. e 75% até os 24 anos de idade. Mas a maior parte desses casos passam sem diagnóstico ou tratamento adequado. Essa realidade ainda é mais sensível em um país marcado por desigualdades, como o Brasil, na qual as populações mais vulnerabilizadas tendem a ter menos acesso à promoção, prevenção de doenças e tratamento em saúde mental. E eu gostaria de trazer aqui um dado muito importante, que foi obtido através do Panorama da Saúde Mental. que é uma pesquisa realizada pelo Instituto Cactus junto com a Atlas Intel. que foi lançado em 2025, e que expõe que jovens de 16 a 24 anos de idade apresentaram indicadores inferiores entre todas as faixas etárias. Essa realidade é ainda pior quando olhamos para jovens mulheres que apresentam indicadores de saúde mental ainda mais baixos. E aí que chegam as questões socioeconômicas, como baixa renda e desemprego, puxam para baixo os indicadores de saúde mental da população e também desses dois grupos prioritários. E ainda quero enfatizar que, como jovem, eu tenho a plena convicção de que ocupar este momento é, em si, um ato de resistência. Foi tardio o nosso reconhecimento como sujeitos físicos e de direitos. E como consequência, vivemos um esvaziamento de políticas públicas específicas para nós e nossa saúde mental. Recusar o apagamento é legitimar narrativas e é afirmar que não podemos mais esperar. Porque existir hoje também é dar visibilidade, é construir pontos e é transformar o presente com coragem e compromisso. A saúde mental, assim como outros momentos históricos, ainda vivencia processos de silenciamento e invisibilidade. Quando a gente fala de saúde mental, a gente fala de uma saúde mental que é biopsicossocial. Porque não se tem como a gente falar, deputada Dandara, de uma patologia se a gente considerar que se aquele jovem, todo dia que ele acorda, ele abre a porta da geladeira e enxerga apenas água. Ou... quando ele tem deputada Dandara e secretário Ricardo. de largar os estudos, porque ele tem que trabalhar para poder colocar na mesa dele o pão de cada dia. Ou seja... Quando é que esse jovem vai parar... e até a cidade, porque no território dele não tem, talvez, ali acesso... Não tem ali um consultório, como a gente tem um programa consultório na rua... e como quando é que ele vai buscar uma saúde metal Quando ele vai buscar uma psicoterapia que muitas das vezes possa ser inacessível para ele? e quando há a prioridade ainda É sobreviver. De modo específico, a realidade vivenciada por jovens no interior do sertão nordestino, evidencia desafios significativos no que se refere ao acesso aos dispositivos de saúde mental, compreendidos como os pontos estratégicos de cuidado no âmbito da rede de atenção psicossocial. Haps. Embora se reconheçam avanços institucionais e legais no campo da atualidade das políticas públicas de saúde mental no Brasil, as dificuldades de acesso ainda se revelam de maneira expressiva. sobretudo em regiões interioranas. A edição de 2025 do relatório Saúde Mental em Dados do Ministério da Saúde. Demonstra essas disparidades. Existem 324 CAPs infantos juvenis no país, todo para dar conta da demanda crescente por cuidados em saúde mental para crianças e adolescentes. Mas, além de insuficientes, esses equipamentos estão pouco distribuídos onde... Sem faz na necessidade. 11 estão localizados na região norte. E ainda, trazendo novamente o panorama de saúde mental, enfatiza que os fatores que impactam diretamente a saúde mental, A situação financeira continua sendo a principal preocupação da população brasileira. 83% dos participantes relataram ter se preocupado com o tema pelo menos uma vez nas duas semanas anteriores à pesquisa. Observa-se que o processo de acesso aos serviços de saúde mental é atravessado por múltiplas barreiras de natureza estrutural, organizacional e simbólica, Assim como Maria Páscoa também citou logo no início. E aí Adicionalmente, as barreiras socioculturais exercem papel determinante nesse cenário. É quando se para para observar os determinantes sociais da saúde e os impactos que tem na vida do jovem mas também dentro de todo o seu âmbito familiar. Paralelamente a isso, é imprescindível considerar que a vulnerabilidade desses jovens é intensificada pela limitada oferta de oportunidades de geração de emprego e renda na região. A ausência de inserção produtiva contribui para o surgimento de sentimentos de inutilidade, baixa autoestima e questionamentos acerca do próprio valor social e das próprias capacidades. Em momentos como esse. que é aberto o espaço para que um jovem venha, que o jovem se sente visto Cuidado e preocupado. e mudar as realidades que se enxergam. Para tanto, o cuidado em saúde mental não pode ser reduzido à lógica estritamente biomédica. centrada na prescrição e dispensação de psicotrópicos de forma desarticulada das realidades concréticas. No caso da juventude, essa alimentação torna-se ainda mais evidente, uma vez que suas experiências estão profundamente marcadas por questões relacionadas ao acesso a direitos, inserção social, construção de identidade e perspectivas de futuro. E, para encerrar, eu recorro à força poética de Belchior. quando nos provoca ao dizer que apesar de termos feito tudo Tudo, tudo o que fizemos. Nós ainda somos mesmos e vivemos como nossos pais. Que essa frase não seja apenas constatação. mas inquietação. Que ela nos desacomode, nos atravesse e nos convoque a responsabilidade histórica de romper ciclos que insistem e se repetir. A nossa luta por saúde mental, por dignidade, por oportunidades, por reconhecimento das juventudes e das diversidades, não podem ser em vão. estamos caminhando no caminho certo Somos vistos e estamos sendo ouvidos. E ainda é preciso ainda mais espaços que façam a manutenção disso. Ela precisa ser combustível para a transformação social que tanto almejamos. Que possamos construir caminhos onde antes havia um silenciamento, abrir portas onde antes havia exclusão e afirmar com coragem que não aceitaremos herdar as mesmas limitações como o destino. Que a nossa geração não apenas resista, mas transforme para que o futuro não seja a repetição do passado. E que para viver não seja apenas sobreviver, mas existir com plenitude, Direitos e esperança. Aplausos.




