CENTRO DE ESTUDOS E DEBATES ESTRATÉGICOS
Sobre o Evento
O evento debateu o Plano Nacional de Juventude, enfatizando que a saúde mental é indissociável de questões socioeconômicas, estruturais e territoriais. Especialistas e parlamentares destacaram a influência do racismo, do patriarcado e da precarização na vulnerabilidade de jovens negros, indígenas e quilombolas, defendendo políticas públicas interseccionais que integrem saberes ancestrais, garantam direitos territoriais e combatam desigualdades históricas.
Professora da Universidade Federal do Pará e Líder quilombola da Ilha de Marajó - Professora da Universidade Federal do Pará e Líder quilombola da Ilha de Marajó
Primeiramente, muito obrigada pelo convite, agradeço aos SEDES pela confiança, pela oportunidade de estar aqui representando o povo quilombola do Brasil e o nosso coletivo de educação da CONAC, que é a nossa Coordenação Nacional de Articulação dos Povos Quilombola do Brasil. E... vindo da Amazônia e organizada como pessoa a partir de uma luta em defesa do povo quilombola. E aí Chego aqui. trazendo as meninas Quilombolas da Escola Nacional de Meninas Quilombolas do Brasil. uma estratégia de luta do movimento quilombola nacional para garantia dos direitos das meninas e meninos quilombolas em articulação com o movimento nacional Chego aqui também com o mestre bispo. que nos ensinou a contracolonizar e a nos constituir enquanto sujeitos e sujeitas quilombolas. Obrigado. nesse campo que tem sido um campo de disputas, de narrativas e um campo muito violento no que diz respeito às estratégias e máscaras que o racismo tem imposto sobre o nosso coletivo ao longo da história nacional. Chego com o professor Azélia Amador de Deus, quilombola da Ilha do Marajó e uma das nossas referências na luta antirracista no Brasil. E aí Chego também com a professora Neusas. Souza. referência também para nós no campo da luta e da luta pela saúde mental do povo negro no Brasil e de tantos e tantas que nos antecederam nessa caminhada, nessa trilha e que nos permitem chegar até aqui. E desse lugar de resistência, tenho feito estudos e análises da nossa... vivência e existência no Brasil, E a partir desse lugar da academia, desse lugar dos estudos, que é o campo onde a gente pode... pensar conjuntamente com o Estado a possibilidade de construção de políticas públicas para garantia de direitos. E pensando nisso, né? A gente tem feito um esforço coletivo... juntamente com o Estado brasileiro, E pensando a partir de uma epistemologia quilombola, a necessidade... de cuidar da nossa saúde. E o entendimento do nosso movimento é que esse cuidar da saúde, ele perpassa por uma questão política. antiga e ainda não resolvida no Brasil, que é a titulação dos nossos territórios. Nós entendemos que a nossa saúde, que a gente compreende holisticamente enquanto saúde, perpassa por a gente ter territórios titulados e seguros. Por que? os estudos do relatório E... sobre saúde quilombola do Brasil, organizado pela Fiocruz em parceria com o SUS, para proposição da política nacional de saúde quilombola, no SUS, aponta que um dos principais vetores de adoecimento mental. e das mais diversas formas, acabam sendo resultados de conflitos sócio-territoriais. E considerando-se que, infelizmente, Nós temos apenas 494 territórios oficialmente oficialmente delimitados, não titulados, oficialmente delimitados no contexto do Brasil, a realidade dos territórios quilombolas e das pessoas que vivem nesses territórios e resistem secularmente, eles acabam, sendo impactados por um conjunto de violências que terminam por incidir nas formas como nós vivenciamos esse território. Então, quando a gente Faz análise. dos dados do Brasil em relação à juventude e esses dados eu gostaria de saber se é possível apresentá-los no slide que eu encaminhei, apontam que o censo 2023 mostrou que nós, O povo quilombola do Brasil é um povo jovem. É um povo jovem, e que E... em sua maioria está ali na faixa dos 31 anos. Pode passar, por gentileza, só para a parte que a gente vai trazer os dados das pessoas quilombolas, mas assim... Então, nós temos um dado muito importante que 48,44% da nossa população tem até 31 anos. Então, nós somos mais de 1 milhão e 300 mil pessoas e metade é jovem. Quando a gente pensa em políticas para a juventude, a gente tem que considerar esses dados, né? Essas informações no processo de criação de políticas públicas. Quando a gente vai pensar a política de saúde para a população quilombola do Brasil, a gente tem que colocar isso como... como uma informação importante na proposição de políticas públicas. Então, a gente tem, desses mais de 1 milhão e 300 mil pessoas, 23,69% têm de 0 a 14 anos, 24,75% têm entre 15 e 29 anos. Então, é para essa juventude que a gente precisa pensar políticas públicas. Quando a gente fala da necessidade de estitulação desses territórios, a gente acaba... É... E... buscando mais uma vez informações feitas pela CONAC, em relação aos dados que a gente tem sobre violência que afeta os quilombos, esses dados também estão relacionados a questão das violações de direitos que acontecem dentro desse território. Então, o livro violência contra quilombolas no Brasil. primeira edição de 2008 e a segunda edição de 2023 apontam, por exemplo, que É... Entre 2013 e 2023, mais de 70 lideranças foram assassinadas no Brasil. Um dos casos mais recentes que repercutiu muito grandemente foi o caso de Ia Bernadette na Bahia. E a Bernadette, que foi executada... na frente de seus jovens netos que estavam ali acompanhando ela naquele momento e que... a gente fica se perguntando tentando entender que Como está? a saúde mental, os sentimentos, as emoções que a professora Andeusa Santo nos fala desses jovens. Meninos e meninas quilombolas expostos a essa violência extrema. Obrigado. mas também essa violência passa pelas ameaças que a gente constantemente está sofrendo dentro dos territórios. A gente está hoje... com duas mulheres no Marajó. sendo protegidas porque fazem a defesa do território. contra agente do agronegócio, contra a invasão dos territórios e isso impacta a saúde dessas mulheres. E quando impacta a saúde dessas mães de família, impacta também A Obrigado. Os meninos e as meninas, que são os filhos e as filhas, dessas mulheres no território. E aí Sim. E... Portanto, quando essa juventude é afetada por esse conjunto de violências... a gente fica se perguntando então como é que a gente vai pensar políticas públicas que... Agregue essa juventude no sentido de buscar curas. e a gente tem, estrategicamente, isso é uma parte do que eu faço, meus estudos, agora estou fazendo um pós-doutoramento junto a a Universidade Federal do Ceará. tratando sobre saúde mental principalmente das mulheres em contextos de conflitos sócio-territoriais e ambientais. E uma das coisas que se mostra evidente, que se mostra que é possível, e isso está dentro da nossa política, da proposta de política. de saúde para a população quilombola é que nós temos estratégias malungueiras para cuidar da saúde dos nossos, dentro dos nossos territórios. São tecnologias ancestrais, como as curandeiras, as pajés, as parteiras secularmente cuidaram do nosso povo. mas que não tem o seu reconhecimento enquanto agentes de cuidados por parte do Estado brasileiro. E na política de saúde quilombola, isso é proposto. Então, o que a gente tem que agregar para a política de juventude é pensar, né, como essas curadoras e curadores que estão nos territórios quilombolas podem ser agentes potentes de cura do corpo e da mente que sempre fizeram. E ela foi cuidada pela parteira, e essa parteira deu conta de curar mamãe naquele contexto do território quilombola. E nós temos muitas referências disso no nosso cotidiano, sempre, desse cuidar do coletivo, desse cuidar da saúde entre nós. essas estratégias de agregar, de incidir politicamente para que a nossa política seja aprovada no Conselho Nacional de Saúde, para que a gente possa atuar a partir do SUS com oferta de apoio psicossocial dentro dos nossos territórios, para que a gente possa ter... os nossos CAPs, atendendo de forma E... quilombola a cuidar dos nossos oris, a cuidar da nossa cabeça, que a gente entende, né, como a mana Gênice Araújo propõe, que a gente está com a cabeça desorientada, porque o nosso ori, Esse orixá que cuida da nossa cabeça, ele não está bom. Ele não está bem... no contexto de conflitos socioambientais em que a gente vive, em que a gente é exposto, em que a nossa juventude é exposta. Então, a gente possui essas estratégias, eu continuo estudando nesse campo. Sou antropóloga de formação, mas estou fazendo essa interconexão com a psicologia. para buscar esses meios para evidenciar para mostrar no mundo da ciência que a gente também tem ciência. A gente tem uma epistemologia organizada desde a ancestralidade e mantida por nós ao longo desse tempo. E... No mais, eu convido os representantes, as pessoas, todas as pessoas que estão nos ouvindo nesse momento. e neste evento, a se juntar a esse esforço coletivo. de pensar nas nossas juventudes, de garantir que... Minimamente o racismo seja observado, de fato, como um vetor de adoecimento, porque quando não se titula territórios, quando não se garante políticas de saúde dentro dos nossos lugares, do nosso quilombo, dos nossos territórios, é o racismo operando. como estruturante desse sistema que acaba nos alijando dos direitos, do direito à saúde. Então, é a partir disso que a gente se coloca, eu me coloco enquanto representante do coletivo de educação da CONAC, enquanto pesquisadora. para atuar juntamente com o SEDES, para atuar juntamente com o nosso legislativo, para pensar... essas políticas. Muito obrigada, deputada, muito obrigada, secretário executivo. Eu sou Ricardo, por estar. nos oportunizando falar. e ter a possibilidade de ser escutada nessa casa. Muito obrigada. Obrigada.




