COMISSÃO DE MINAS E ENERGIA
Sobre o Evento
A Comissão de Minas e Energia debateu o desenvolvimento e a implementação de micro-reatores nucleares (SMRs) com tecnologia nacional como fonte de energia limpa e estratégica. O foco centrou-se na viabilidade técnica, na necessidade de modernização regulatória, em modelos de financiamento via parcerias público-privadas e nos desafios para a segurança energética do país.
Coordenador de Projeto da Secretaria Nacional de Mudança do Clima - Ministério de Meio Ambiente e Mudança do Clima
Boa tarde a todos. Estamos quase às 18 horas. Meu nome é Carlos Príncipe, eu sou coordenador de projetos do Ministério do Meio Ambiente, na Secretaria Nacional de Mudança do Clima. Também sou gestor governamental, trabalhei durante muitos anos no Ministério de Minas e Energia. inclusive sob a administração do almirante Bento Albuquerque. É... Na ocasião, eu Eu chefiava o departamento de desenvolvimento energético, que lidava com eficiência energética, com energias renováveis. E hoje eu me encontro, então, na Secretaria de Mudança do Clima, falando e estudando... a esse fenômeno, que é um fenômeno da nossa geração, de lutar contra as mudanças climáticas. A minha tarefa hoje não é tão trivial assim, porque, a bem da verdade, esse tema de... pequenos reatores modulares, ele ainda não está permeado dentro do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, tampouco na minha secretaria onde eu trabalho, mas eu me permito aqui fazer algumas reflexões que eu acho que podem enriquecer esse debate. A primeira delas, assim, eu trago um conceito Já... bastante antigo, mas que é pouco falado. Talvez o nosso professor já tenha ouvido falar e já tenha conhecimento, mas há algum tempo criou-se uma escala chamada escala Kardashev. Essa escala se propôs a tentar compreender como a humanidade... ou como humanidades ao longo do universo poderiam se comportar, e como elas poderiam ser classificadas em termos de inteligência e de avanço científico, tecnológico, foi durante a época em que se buscava se nós éramos os únicos do universo. Por que nós estaríamos sós dentro de um universo tão grande? E essa escala de Kardashev, curiosamente, ela classifica as sociedades ou as humanidades de acordo com o uso da energia. E ela coloca... como civilização do tipo 1, aquela civilização que conseguiria utilizar de maneira completa ou na sua completude a energia proporcionada pelo próprio planeta em que ela habita. E uma civilização do tipo 2 faria isso, e também utilizaria a energia da sua estrela mais próxima, no caso nosso Sol. e a civilização do tipo 3, usaria da galáxia e por aí em diante. Se não me engano, na escala, ela termina em 5 ou ela até é aberta hoje em dia. Mas, enfim, tudo isso para dizer que hoje a nossa humanidade se encontra... alguma coisa perto de 0,7. Significa que nós já utilizamos bastante a energia do nosso planeta, muito pouco ou quase nada a energia que provém do Sol. Enfim, estamos ainda com um longo caminho pela frente. para que possamos ser enquadrados numa civilização do tipo 1. Agora, por que essa classificação? Essa classificação é basicamente no sentido de a gente fazer uma correlação entre energia e desenvolvimento. E quando a gente observa as palestras que foram feitas, foram feitas antes de mim, a gente percebe claramente essa correlação também como projeto de país. Um país que tem autonomia energética ou que tem um patrimônio... como o nosso, de uma diversificação energética, é um país que está numa posição superior... a média mundial. Isso porque, a gente sabe muito bem, já foi enfatizado pelo deputado, que energia sempre foi, na história da humanidade, um motivo de guerra, um motivo de desavenças, um motivo de conquistas, uma civilização que não tem acesso à energia. por essa correlação de Kardashev, ela não teria como se desenvolver. Isso é muito claro da gente perceber porque a energia tem a sua função exatamente na capacidade de realizar trabalho, de transformar alguma coisa em algo útil para a gente. Se nós comemos é porque essa energia dos alimentos é transformada em energia química e nos permite andar, correr, pensar, fazer tudo o que a gente faz. né? Então, energia é, e sempre foi e sempre vai ser, um elemento central na história da humanidade que a gente precisa trabalhar para que, tenhamos acesso universal, qualitário, e que possamos transformá-la, de alguma forma, em desenvolvimento. E aí, o que isso correlaciona com o meio ambiente? Correlaciona, e mais especificamente na secretaria onde eu atuo, que... É exatamente a nossa geração, a geração que enfrenta talvez o maior desafio de toda a história, que é da própria... da própria resistência, da própria permanência da civilização, em nosso planeta, porque enfrentamos um problema cuja solução ainda não é perceptível. Por quê? Porque as mudanças climáticas, longe de ser um problema... básico de aquecimento global, ela traz consequências ainda não percebíveis ou não conhecidos na sua plenitude. Por quê? Porque ela, literalmente, avacalha o sistema climatológico mundial, de tal maneira que eventos raros, ou antes raros, passam a ser mais frequentes e eventos extremos passam a ser mais corriqueiros. E esses eventos extremos, por uma deficiência de conhecimento nosso ainda, fazem com que as consequências sejam exacerbadas. A gente tem enfrentado mais recentemente enchentes no sul, seca, seca no norte, coisa que era impensável até algum tempo atrás. E isso é apenas a pontinha da pontinha do iceberg, o que a gente pode perceber de resultados mais imediatos. Quando... ou se a gente chegar a um ponto onde a mudança do clima vai se tornar... realmente uma... uma... um risco à sociedade ou um risco à humanidade se nós não tivermos uma solução de médio prazo, isso significará que todas as soluções possíveis e palpáveis e que estão à mão vão se tornar cada vez mais caras, né? E por conta disso e por consequência, é que eu acredito que a energia nuclear tem seu papel importante, sim. Ela tem um papel, primeiro, na própria diversificação e na capacidade que ela dá de ser mais uma solução à mão para qualquer... qualquer problema relacionado à oferta de energia, mas acima de tudo, porque quando nós tratamos de políticas públicas, a gente sabe que não há um... um elemento de uma política que não tenha rebatimento sobre outras políticas. E no caso da energia nuclear, é claramente também um projeto de soberania, um projeto de ciência e tecnologia, ela tem rebatimentos importantes que não somente o do uso energético. os valores, os custos iniciais de capex, capex principalmente, dos grandes projetos de energia nuclear, tanto os que já foram executados quanto os que ainda estão por vir, eles comparativamente a outras soluções energéticas, ele é muito mais caro. Eólica e solar hoje tem preços bastante competitivos, embora, já foi salientado aqui, oferta de energia por conta da intermitência. Mas... Da mesma forma, existem alternativas como bancos de baterias e tecnologias de armazenamento, que já estão também bastante consolidadas e com custos bastante competitivos. E quando não estão competitivos, estão caindo... vertiginosamente, fazendo com que essas soluções também estejam no radar como alternativas a intermitência das renováveis. Então, dito isso, a minha percepção e minha reflexão é de que não devemos abrir mão, óbvio, de uma tecnologia que tem rebatimentos importantes sobre outras políticas que não simplesmente é energética. A despeito disso, não podemos também abrir mão das questões relacionadas à... a as questões ambientais, Só um instantinho que tem... É que vocês não percebem, mas eu sou deficiente auditivo. Então, meu aparelho auditivo, tudo que toca no meu celular vai direto para o meu aparelho. Eu fico escutando, tocando aqui. Aí complica. Mas, enfim, tem as questões ambientais, a gente não pode abrir mão. E, pelo que eu pude perceber, principalmente na explicação do professor, os problemas pequenos reatores modulares, eles têm esse grande diferencial, que o impacto ambiental deles é bastante restrito. Talvez, eu estava imaginando ali sentado, talvez a gente possa considerá-lo guardado às dívidas proporções, do mesmo impacto ambiental que tem uma máquina de raio-x dentro de um hospital. e nem por isso isso deixa de ser utilizado por conta da segurança que nós já temos. Um grande desafio imagino, seja de quebrar esse preconceito que talvez haja ainda em grande parte da população, razões óbvias, uma guerra fria que a minha geração enfrentou, um acidente, um infeliz acidente de Goiânia, então existe todo um inconsciente coletivo que ainda se materializa sob a forma de um preconceito com relação à energia nuclear. Mas, de todo modo, ninguém vai a um hospital hoje pensando nisso quando vai tirar um raio-x. Ou pelo menos eu não fico preocupado quando vou tirar um raio-x. Então, a gente precisa ter esse tipo de debate, desse tipo de audiência e de troca de informações justamente para... trazer à população em geral informação necessária para tomada de decisão. E eu acho que, do ponto de vista do Ministério do Meio Ambiente, e mais especificamente da Secretaria de Mudança do Clima, eu considero sim a alternativa de quanto mais diversificada a nossa matriz energética e quanto mais soluções nós tivermos a mão para enfrentar o problema que é ultra perverso, que é o da mudança do clima, ou da abdicação, não digo abdicação, mas a diminuição da nossa dependência do combustível fóssil, que é um elemento que está sendo Não. debatido, eu começo o debate agora, o próprio despacho presidencial de 8 de dezembro do ano passado, que deu pontapé inicial a essa discussão no âmbito nacional, mas é uma discussão que está ocorrendo em âmbito internacional, foi uma das consequências da COP29, se eu não me engano, foi debatido agora na COP de Belém e possivelmente vai ser assunto nas próximas COPs, porque a redução da dependência de combustíveis fósseis, esse componente de fazer frente ao desafio gigantesco da humanidade com relação às mudanças do clima, mas também tem de evitar consequências desagradáveis como as próprias guerras que estão acontecendo hoje em nome dos combustíveis fósseis. Então quanto menos dependente uma nação é de um combustível que tem causa tantas guerras, mais pacífica e mais propensa a desenvolver suas tecnologias de forma e uso pacífico do que se envolver em conflitos que podem ter uma escala maior do que simplesmente o Estreito de Hormuz. Então essas são as minhas considerações e minhas reflexões. Eu fico à disposição para quaisquer questionamentos.




